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Osho É Possível Haver um Mundo Harmonioso?

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O anseio por uma utopia é basicamente o anseio pela harmonia no indivíduo e na sociedade. A harmonia nunca existiu; sempre houve o caos.
 
A sociedade foi dividida em diferentes culturas, diferentes religiões, diferentes nações e todas baseadas em superstições. Nenhuma das divisões são válidas. Mas essas divisões mostram que o homem está dividido dentro dele mesmo: essas são as projeções de seu próprio conflito interior. Ele não é um dentro, eis porque ele não pode criar uma sociedade, uma humanidade exteriormente.
A causa não é externa. O exterior é somente o reflexo do interior do homem.
 
O homem evoluiu dos animais.
 
Isso é totalmente apoiado pela psicanálise moderna, particularmente pela escola de Carl Gustav Jung, porque no inconsciente coletivo do homem existem memórias que pertencem à animalidade.
Se o homem for profundamente hipnotizado, primeiro ele penetra na mente inconsciente, que é apenas à parte reprimida de sua vida. Se sua hipnose for mais aprofundada, então ele penetra no inconsciente coletivo, onde estão as memórias dos animais.
 
As pessoas começam a gritar - nesse estágio eles não podem falar uma língua. Eles começam a gemer e a chorar, mas a linguagem é impossível; eles podem gritar, mas de uma maneira animal. E no estado de inconsciência coletiva, se for permitido a eles se movimentarem ou se for dito a eles para se movimentarem, eles se movimentam de quatro - eles não ficam de pé.
No inconsciente coletivo certamente há remanescentes que sugerem que eles estiveram algum tempo em um corpo animal. E pessoas diferentes vêm de corpos de animais diferentes. Esta pode ser a causa desta diferença nos indivíduos. E às vezes você pode ver uma similaridade - alguém se comporta como um cachorro, alguém se comporta como uma raposa, alguém se comporta como um leão.
 
E há um grande suporte no folclore, em antigas parábolas como as fábulas de Aesop, ou Panchtantra na Índia - que são as mais antigas - nas quais todas as histórias são sobre animais, mas são muito significantes para os seres humanos e representam certos tipos humanos.
E o homem ainda carrega muito do instinto animal, sua raiva, seu ódio, seu ciúme, sua possessibilidade, sua esperteza. Tudo isso que tem sido condenado no homem parece pertencer a um inconsciente profundamente enraizado. E todo o trabalho da alquimia espiritual é como se livrar do passado animal.
Sem se livrar do passado animal, o homem permanecerá dividido. O passado animal e a humanidade não podem existir como um porque a humanidade possui as qualidades opostas.
 
Desse modo tudo que o homem pode fazer é tornar-se um hipócrita. 
 
 
No que diz respeito ao comportamento formal, ele segue os ideais da humanidade, do amor, da verdade, da liberdade, da não possessibilidade, da compaixão. Mas isso permanece uma camada muito fina e a qualquer momento o animal oculto pode surgir; qualquer acidente pode trazê-lo à tona. E se isso vem à tona ou não, a consciência interior está dividida.
Esta consciência dividida criou a ânsia e a questão: Como se tornar um todo harmonioso no que se refere ao indivíduo? E o mesmo é verdadeiro sobre toda a sociedade: Como podemos tornar a sociedade um todo harmonioso, onde não haja guerras, nenhum conflito, nenhuma classe, nenhuma divisão de cor, casta, religião, nação?
 
Por causa de pessoas como Thomas Moore, que escreveu o livro Utopia, O nome tornou-se sinônimo de todas as metas idealísticas, mas elas não alcançaram o problema real. Eis porque parece que a idéia de uma utopia nunca vai acontecer. Se você pensa na sociedade como sendo uma sociedade ideal, um paraíso, isso parece ser impossível: existem tantos conflitos e parece não haver nenhuma maneira de harmonizá-los.
 
Toda religião deseja conquistar o mundo inteiro, não em estar harmonizada.
 
Toda nação deseja conquistar o mundo inteiro, não em estar harmonizada.
Toda cultura deseja se espalhar pelo mundo e destruir todas as outras culturas, não trazer harmonia entre elas.
 
Assim a utopia tornou-se sinônimo de algo que é simplesmente imaginário, E existem sonhadores, a própria palavra utopia também significa aquilo que nunca vai acontecer. Mas o homem ainda continua pensando nestes termos novamente.
Parece haver algum impulso profundamente enraizado...Mas esse pensar é sobre os sintomas; eis porque parece que nunca vai acontecer. Ele não está olhando para as causas. As causas são individuais.
A utopia é possível. Uma sociedade humana harmoniosa é possível, deveria ser possível, porque será a melhor oportunidade para todos crescerem, a melhor oportunidade para cada um ser ele mesmo. A mais rica possibilidade estará disponível para todos. Assim parece que do jeito que está, a sociedade é absolutamente estúpida.
Os utopistas não são sonhadores, mas seus assim chamados realistas que condenam os utopistas são estúpidos. Mas ambos concordam em um ponto; que algo tem que ser feito na sociedade.
 
O príncipe Kropotkin, Bakunin e seus seguidores gostariam que todos os governos fossem dissolvidos; como se estivesse em suas mãos, como se você simplesmente dissesse assim e os governos se dissolvessem. Estes são os anarquistas, que são os melhores utopistas. Lendo-os, parece que tudo que eles estão dizendo é significante. Mas eles não possuem meios de materializá-los e eles não têm nenhuma idéia de como isso vai acontecer. E há Karl Marx, Engels e Lênin; os maxistas, os comunistas e as diferentes escolas de socialismo, conectadas com sonhadores diferentes. Até mesmo George Bernard Shaw tinha sua própria idéia de socialismo e ele tinha um pequeno grupo chamado de sociedade Fabiana. Ele estava propagando um tipo de mundo socialista, totalmente diferente do mundo comunista que existe hoje.
 
Existem fascistas que pensam que é uma questão de mais controle e mais poder governamental; exatamente o oposto dos anarquistas, que não querem nenhum governo; todas as fontes de corrupção estão no governo.
E existem pessoas, os fascistas, que querem todo o poder nas mãos dos ditadores. Eles dizem que é por causa da idéia democrática que a sociedade está dividida, devido a que na democracia o mais baixo denominador se torna o dirigente. Ele decide quem vai dirigir; e ele é o mais ignorante, ele não possui nenhum entendimento. A massa decide como a sociedade seria. Assim, de acordo com os fascistas, democracia é apenas governo da massa, não é democracia; não existe democracia possível.
De acordo com os comunistas, todo o problema é simplesmente a divisão de classes entre o pobre e o rico. Eles acham que se todo o poder de governo for para as mãos dos pobres e eles tiverem uma ditadura do proletariado; quando todas as classes desaparecerem e a sociedade se tornar igual; então logo não haveria necessidade de nenhum estado.
 
Todos eles estão preocupados com a sociedade e aí é onde está a falha deles. 
 
Como vejo isto, a utopia não é algo que não vai acontecer, é algo que é possível, mas devemos ir para as causas, não para os sintomas e as causas estão nos indivíduos, não na sociedade.
 
Por exemplo, em setenta anos, a revolução comunista na Rússia soviética não foi capaz de dissolver a ditadura. Lênin pensava que dez ou quinze anos no máximo seriam suficientes, porque naquele tempo podíamos igualar todo mundo, distribuir a riqueza igualmente; então não haveria necessidade de governo.
Mas após quinze anos eles descobriram que quando você remove o estado vigente, as pessoas se tornam novamente desiguais. Então haverá novamente pessoas ricas e haverá novamente pessoas pobres, porque existe algo nas pessoas que as tornam ricas ou pobres. Então se você deseja que elas permaneçam iguais, você tem que mantê-las em um quase campo de concentração. Mas esse é um tipo estranho de igualdade porque destrói toda a liberdade, toda individualidade.
E a ideia básica era que seria dada igual oportunidade ao indivíduo. Suas necessidades seriam igualmente atendidas. Tudo igual para todos. Ele irá compartilhar.
 
Mas o resultado final foi exatamente o oposto. Eles quase destruíram o indivíduo a quem eles estavam tentando dar igualdade, liberdade e tudo de bom que pode ser dado aos indivíduos. O próprio indivíduo foi removido. Eles ficaram com medo do indivíduo; e a razão é que eles ainda não estão cientes que por mais que o estado vigente dure; sete ou setenta anos; isso não fará nenhuma diferença.
 
Quando você remove o controle, haverá poucas pessoas que saberão como enriquecer e haverá poucas pessoas que saberão como empobrecer. E eles simplesmente começarão a coisa toda novamente.
 
No princípio eles tentaram...porque a idéia de Karl Marx era que não haveria casamento no comunismo. E ele era muito real sobre quanto a isso: que o casamento nasceu devido à propriedade individual. A lógica dele estava correta. Houve um tempo em que o casamento não existia. As pessoas viviam em tribos e faziam amor como os animais fazem amor.
 
O problema começou somente quando umas poucas pessoas que eram mais espertas, mais inteligentes, mais poderosas, conseguiram alguma propriedade. Agora eles queriam que sua propriedade, após sua morte, ficasse para seus próprios filhos. Isso é um desejo natural que se uma pessoa trabalha a vida inteira e junta propriedades, terras ou cria um reino, isso deveria ficar para seus filhos.
 
De uma maneira sutil, através dos filhos, devido a que eles são seu sangue, ele continuará a governar, ele continuará a possuir. Essa é uma maneira de encontrar algum substituto para a imortalidade porque a continuidade acontecerá: Eu não estarei lá, mas meu filho estará ; ele irá me representar, ele será meu sangue e meus ossos e minha medula. E assim o filho dele estará lá e haverá uma continuidade. Desse modo, em certo sentido, eu terei a imortalidade. Não posso viver para sempre, então essa é uma maneira de substituir.
 
Eis porque o casamento foi criado; de outra modo era mais fácil para o homem não ter nenhum casamento porque o casamento era simplesmente uma responsabilidade; das crianças, de uma esposa. Quando a mulher está grávida, então você precisa alimentá-la....E não havia necessidade de ter toda essa responsabilidade. A mulher estava tendo toda a responsabilidade.
 
Mas o homem queria alguma imortalidade e que sua propriedade fosse possuída pelo seu próprio sangue. E a mulher queria alguma proteção; ela era vulnerável. Enquanto ela estava grávida, ela não podia trabalhar, ela não podia ir caçar; ela tinha que depender de alguém.
Então era do interesse de ambos ter um contrato para que eles permanecessem juntos, não trairiam de forma nenhuma, porque a coisa toda era manter o sangue puro.
 
Então a ideia de Marx era que quando o comunismo chegasse e a propriedade se tornasse coletiva, o casamento se tornaria sem sentido porque sua razão básica foi removida; agora você não tem mais qualquer propriedade privada. Seu filho não herdará nada.
De fato, assim como você não pode ter propriedade privada, você não pode ter uma mulher privada; isso também é propriedade. E você não pode ter um filho ou uma filha privado, porque isso também é propriedade privada. Assim, com o desaparecimento da propriedade privada, o casamento irá desaparecer.
 
Então após a revolução, por dois ou três anos, na Rússia eles tentaram isso, mas não foi possível. A propriedade privada desapareceu mas as pessoas não estavam preparadas para abandonar o casamento. E até o governo descobriu que se o casamento desaparece, toda a responsabilidade cai sobre o governo; das crianças, da mulher.... Assim porque tomar uma responsabilidade desnecessária? E não é uma coisa pequena. É melhor deixar o casamento continuar.
Então eles reverteram à política; esqueceram tudo sobre Karl Marx porque em apenas três anos eles descobriram que isso iria criar dificuldades e as pessoas não queriam.
As pessoas também não queriam abandonar a propriedade privada; isso estava sendo tomado deles pela força. Quase um milhão de pessoas foram mortas; por pequenas propriedades privadas. Alguém tinha um pequeno pedaço de terra, uns poucos acres e devido a que tudo iria ser nacionalizado...
 
Embora as pessoas fossem pobres, ainda assim elas queriam se apegar a propriedade delas. Pelo menos eles teriam alguma coisa; e agora até isso estava sendo tirado das mãos deles. Eles esperavam obter algo mais; foi para isso que tiveram uma revolução e lutaram por isso. Agora o que eles possuem vai ser tirado de suas mãos. Vai se tornar propriedade do governo, vai ser nacionalizado...
E por pequenas coisas; alguém poderia ter apenas algumas galinhas ou uma vaca e ele não queria...porque isso era tudo que ele tinha. Uma pequena casa... e ele não queria que isso fosse nacionalizado.
 
Estes pobres; um milhão de pessoas foram mortas para tornar todo o país ciente que a nacionalização tinha que acontecer. Mesmo que você tivesse somente uma vaca e você não a desse para o governo, você estaria acabado.
E o governo estava pensando que as pessoas gostariam de separar... Mas isso é como as pessoas meramente lógicas e teóricas têm sempre fracassado em entender o homem. Eles nunca olharam para sua psicologia.
 
Isso era verdade, que o casamento surgiu depois que a propriedade privada passou a existir; o casamento a seguiu. Logicamente, com a propriedade privada dissolvida, o casamento desapareceria. Mas eles não entendem a mente humana. Como a propriedade foi retirada, as pessoas se tornaram mais possessivas uma pela outra porque nada restou. Suas terras se foram, seus animais se foram, suas casas se foram. Agora eles não querem perder sua esposa ou seu marido ou suas crianças. Assim é demais.
 
Lógica é uma coisa...e a menos que tentemos entender mais psicologicamente e menos logicamente o homem, iremos sempre cometer enganos, Marx provou estar errado.
 
Quando tudo foi tirado as pessoas passaram a se apegar mais e mais uma a outra do que antes porque agora isso era sua única possessão: uma mulher, um marido, crianças...E isso era um tal vácuo em suas vidas; toda sua propriedade se foi e agora as esposas deles iriam ser nacionalizadas; eles não tinham lutado uma revolução para isto.
Dessa maneira, finalmente o governo teve que reverter a política; do contrário na constituição deles...na primeira constituição eles declararam que agora não haveria nenhum casamento; e a questão do divórcio não surgiu. Em apenas três anos eles tiveram que mudar isso.
E na Rússia o casamento era mais rígido do que em qualquer outro lugar. O divórcio era mais difícil que em qualquer outro lugar porque o governo não queria mudanças desnecessárias. Que gera papelada e burocracia. Então o governo quer que as pessoas permaneçam juntas, não mudar de parceiros desnecessariamente. E o divórcio cria casos na justiça sobre as crianças; quem deve ficar com elas, o pai ou a mãe; isso é desnecessário.
O governo pensa na eficiência; menos burocracia, menos papelada; e as pessoas estão criando papelada desnecessária, então é muito difícil conseguir um divórcio.
E o tempo passou, eles descobriram que não havia como manter as pessoas iguais sem a força. Mas que tipo de utopia é essa que precisa ser mantida pela força? E devido ao partido comunista ter toda a força, um novo tipo de divisão passou a existir, uma nova classe dos burocratas: aqueles que tinham poder e aqueles que não tinham nenhum poder.
 
É muito difícil tornar-se um membro, obter filiação ao partido comunista na Rússia porque isto significa entrar para a elite do poder. O partido comunista fez muitos outros grupos; primeiro você tem que ser um membro desses grupos e você deve ser examinado de todas as maneiras. Quando eles acham que você é realmente confiável, absolutamente confiável, fidedigno, então você pode entrar no partido comunista. E o partido não está aumentando seus afiliados porque isso significa dividir o poder.
O partido quer permanecer tão pequeno quanto possível para que o poder fique nas mãos de poucos. Agora existe uma classe poderosa. Por setenta anos o mesmo grupo governou o país e todo o país ficou sem poder.
O povo nunca foi tão sem poder sob o regime capitalista ou sob o regime feudal. Sob os Czars eles nunca foram tão sem poder. Era possível para um pobre, se ele fosse suficientemente inteligente, tornar-se rico. Agora não era tão fácil. Você pode ser inteligente, mas não é tão fácil sair da classe sem poder e entrar para a classe dirigente. A distância entre as duas classes era muito maior que antes.
 
Sempre há uma mobilidade em uma sociedade capitalista porque não existe somente pessoas pobres e pessoas ricas, há uma grande classe média e a classe média está continuamente mudando. Umas poucas pessoas da classe média passam para a classe super-rica e outras pessoas estão mudando para a classe pobre. Umas poucas pessoas pobres estão mudando para a classe média; algumas pessoas ricas caem para a classe média ou até mesmo caem para a classe dos pobres...Existe uma mobilidade.
 
Numa sociedade comunista há um estado estático absoluto.As classes estão agora completamente desligadas uma da outra.
Eles queriam criar uma sociedade sem classes e criaram a sociedade mais rígida com classes estáticas.
Isso é quase uma repetição do Hinduísmo. 
 
O que Manu fez cinco mil anos atrás, os comunistas fizeram na Rússia. Manu transformou a sociedade Hindu em quatro classes. Não há nenhuma mobilidade. Você nasceu um brahmin, essa é a única maneira de ser um brahmin. E esta é a sociedade mais alta, a classe mais alta. A número dois é a dos guerreiros, os reis, os chhatriyas. Mas você nasceu na classe, não é uma questão que você possa mudar. Então a terceira é a classe dos vaishyas, os negociantes; você nasceu nela. E a quarta é a dos sudras, os intocáveis.
Todos nasceram em suas castas. Eis porque, até o cristianismo começar convertendo tantos Hindus, particularmente os sudras, que estavam prontos, muito desejosos de se tornarem cristãos, porque pelo menos eles poderiam ser tocáveis...Entre os Hindus, os sudras são intocáveis e não existe como sair dessa estrutura.
Por toda sua vida você tem que permanecer o mesmo como seus antepassados permaneceram por cinco mil anos. Por cinco mil anos houve uma sociedade estratificada. Se alguém fosse um sapateiro, sua família tem estado fazendo sapatos por cinco mil anos. Ele não pode fazer nenhum outro trabalho, ele não pode entrar em nenhuma outra profissão. Isso não é permitido.
Hinduísmo não era uma religião de conversão, porque a grande questão era, se você converter alguém, em qual classe você vai colocar a pessoa? O Cristianismo é uma religião de conversão porque não tem nenhuma classificação; você simplesmente se torna um cristão. Se católicos convertem você, você se torna um católico; se protestantes convertem você, você se torna um protestante.
Mas no Hinduísmo você não pode ser convertido, pela simples razão:Onde você será colocado? Os Brahmins não lhe aceitarão e você não gostaria de ser colocado com os sudras, os intocáveis. Então qual o sentido de vir para uma religião onde você não poderá nem ser tocado? Até sua sombra será intocável. E um brahmin tem que tomar banho se a sombra de um sudra cai sobre ele. O sudra não tocou nele, mas sua sombra também é intocável.
Sendo a religião mais antiga, o Hinduísmo mesmo assim não se espalhou; ela está encolhendo. O Budismo se espalhou por toda a Ásia e tem somente vinte e cinco séculos de idade. O Hinduísmo tem pelo menos dez mil anos de idade ou mais, mas não pode se espalhar, pelo simples motivo que o nascimento é decisivo. Você só pode ser um Hindu pelo nascimento, assim como você só pode ser um Judeu pelo nascimento; e estas são as duas religiões mais antigas.
 
Estas são realmente as duas religiões básicas. 
 
O Cristianismo e o Maometismo são ramificações do Judaísmo; O Jainísmo e o Budismo são ramificações do Hinduísmo. Jainísmo e Budismo são ambos rebeliões de segunda classe; os chhatriyas, os guerreiros; porque eles tinham o poder. Eles eram os reis, eles eram os soldados, eles tinham o poder; e ainda assim, o brâmane estava acima deles. Então naturalmente, mais cedo ou mais tarde eles iriam se revoltar, e finalmente eles se revoltaram. Gautama Buda e Mahavira são ambos da segunda classe. Eles queriam ser da primeira classe, eles tinham o poder e os brâmanes nada tinham: Porque eles seriam a mais alta classe? Assim foi uma rebelião.
 
Mas foi uma coisa estranha que embora estas duas religiões surgiram do rebanho Hindu, apenas o Budismo se espalhou por toda a Ásia. O Jainísmo não se espalhou para fora da Índia. O Budismo conseguiu se espalhar para fora da Índia: o Budismo desapareceu da Índia, mas tomou toda a Ásia. E a razão é que isso foi por causa da mente muito compassiva de Gautama Buda que ele permitiu qualquer um entrar para o Budismo.
Os Jainistas, embora eles também tenham se rebelado contra os brâmanes, permaneceram com a mesma mente; que eles eram mais altos que as outras duas classes. Eles queriam também ser mais alto que os Brâmanes, mas eles nunca começaram a converter ninguém, porque a quem eles iriam converter? Os Brâmanes não estavam dispostos a conversão; eles já eram mais altos que qualquer outro. Somente os sudras podiam ser convertidos porque eles seriam elevados na escala de avaliação. Mas os Jainistas; Mahavira e seu grupo; não eram tão compassivos para aceitá-los.
Então o Jainismo não é uma cultura completa; tem que depender do Hinduísmo para tudo; permaneceu apenas uma filosofia. Nenhum Jainista pode fazer sapatos; Algum sudra Hindu tem que fazer os sapatos. Nenhum Jainista pode limpar os toaletes; algum sudra tem que fazer esse trabalho.
 
Embora eles tenham se rebelado contra os Brâmanes, a rebelião deles foi somente contra a superioridade dos Brâmanes e eles queriam estar mais alto do que os Brâmanes. Mas eles também não eram a favor que as classes mais baixas se elevassem.
 
E o último resultado foi que o Jainismo permaneceu uma religião muito pequena, reduzida em números. E devido a que eles deixaram o Hinduísmo, ao invés de elevar~se acima dos brâmanes, eles até caíram da segunda categoria. Porque eles deixaram o hinduísmo, eles não eram mais chhatriyas. Eles não eram mais considerados guerreiros e nem podiam ser por causa da não-violência. Eles tiveram que abandonar a idéia de lutar, assim a única saída era tornar-se comerciantes.
Mais baixo você pode ir; ninguém lhe impede; então eles tiveram que ir da segunda para a terceira classe e todos eles se tornaram comerciantes. Assim a rebelião fracassou totalmente. Os Jainistas queriam subir acima da primeira classe; o resultado de sua revolução foi que eles cairam da segunda para a terceira classe.
E eles são totalmente dependentes dos Hindus. Para realizar seu trabalho manual eles precisam de trabalhadores; eles não podem trabalhar. E devido a que eles se tornaram comerciantes, lento, lentamente os Hindus vaishyas, os comerciantes Hindus e os comerciantes Jainistas aproximaram-se. Até casamentos começou a acontecer entre eles.
Pouco a pouco eles até mesmo tiveram que pedir aos brâmanes para fazer o trabalho deles; e eles não tinham dinheiro para pagar isso Assim os brâmanes adoravam os Jainistas; que são contra o bramanismo, contra o Hinduísmo; mas eles precisavam usar os Hindus para tudo.
Os sapatos deles eram feitos pelos sudras; os toaletes deles eram limpos pelos sudras. As propriedades deles tinham que ser protegidas pelos chhatriyas, porque eles não podem pegar a espada nas mãos. Eles não podem matar, então eles não podem lutar, eles não podem ir para a guerra; eles têm sua própria força de segurança na raça de guerreiros. E finalmente seus sacerdotes; os brâmanes entraram pela porta dos fundos como seus sacerdotes.
Manu tentou essa sociedade inerte; que ainda é a mesma; cinco mil anos atrás. Isso também era um tipo de utopia, porque ele estava pensando em termos de que assim não haveria nenhuma luta de classes.
A luta de classes pode ser abandonada de duas maneiras. Ou não haveria nenhuma classe; portanto não haveria luta de classes... isso é o que o comunismo está fazendo, mas fracassou porque surgiu uma nova classe. A outra maneira é que as classes deviam ser tão estratificadas que não haveria a questão de uma pessoa mudar para outra classe. Nenhuma luta aconteceria, assim não haveria competição.
 
Um Brâmane permanecerá um Brâmane. Ele permanecerá no topo, não importa se ele é pobre ou rico. O comerciante permanecerá um comerciante. Somente porque ele é rico ele não pode tornar-se um Brâmane, ele não pode comprar a casta. Ele não pode subir; ele permanecerá na terceira classe, mesmo sendo rico. Os sudras permanecerão sudras: eles terão que fazer todo o trabalho sujo e eles não podem mudar.
Isso também era uma utopia. A idéia era que se as classes são completamente estáticas, não haverá nenhuma luta, competição. De certo modo Manu saiu-se melhor do que Marx, porque por cinco mil anos sua idéia permaneceu em prática e na Índia, na sociedade Hindu nunca aconteceu uma luta de classes.
Os pobres estão lá, os ricos estão lá, mas isso não é o problema real para os Hindus. O problema real é aquelas quatro classes, que são absolutamente estáticas. Mas isso é muito perigoso porque impede que as pessoas de mudem para uma direção onde eles possam descobrir a realização de seu potencial. Um sudra pode provar ser um grande guerreiro, mas nunca será permitido a ele. Um Brâmane pode provar ser um grande industrial, mas ele não pode rebaixar-se.
Então isso salvou a sociedade da luta de classe, mas destruiu completamente o indivíduo e seu potencial. O gênio foi arruinado. A mesma coisa está acontecendo com o comunismo: o indivíduo é destruído, seu gênio está arruinado. Ele não pode progredir mesmo que ele seja capaz disso.
Aconteceram tentativas por todo o mundo de criar uma sociedade humana harmoniosa, mas todas fracassaram pelo simples motivo de que ninguém se incomodou porque ela não é naturalmente harmoniosa.
 
Não é harmoniosa porque cada indivíduo está dividido por dentro e suas divisões são projetadas sobre a sociedade. E a menos que dissolvamos as divisões internas do indivíduo, não há nenhuma possibilidade de realmente realizar uma utopia e criar uma sociedade harmoniosa no mundo.
 
Portanto o único caminho para uma utopia é que sua consciência devia crescer mais e sua inconsciência devia crescer menos, assim finalmente chega o momento na sua vida quando nada resta no inconsciente: você simplesmente é consciência pura. Então não há nenhuma divisão.
E este tipo de pessoa, que tem somente consciência e nada oposto a isso, pode se tornar o próprio tijolo em criar uma sociedade que não possua nenhuma divisão. Em outras palavras, apenas uma sociedade que é iluminada pode realizar a demanda de ser harmoniosa; uma sociedade de pessoas iluminadas, uma sociedade de grandes meditadores que abandonaram suas divisões.
 
Em lugar de pensar em termos de revolução e mudança na sociedade, sua estrutura, devemos pensar mais na meditação e na mudança do indivíduo. Esta é a única maneira possível de que algum dia, possamos abandonar todas as divisões na sociedade. Mas primeiro elas precisam ser abandonadas no indivíduo; e elas podem ser deixadas lá.
É quase como as quatro divisões da maneira que Manu concebeu a sociedade. Você tem o Consciente, você tem o inconsciente, você tem o inconsciente coletivo e você tem o inconsciente cósmico. Estas são as quatro divisões dentro de você; quando você se aprofunda para espaços mais escuros. Manu também dividiu a sociedade em quatro. A parte mais consciente é a Brâmane; ele a faz a mais alta, a parte mais sábia. Mas ele começa com a sociedade.
Quando Manu primeiro dividiu a sociedade, alguém pode ter sido um sábio, mas isso não quer dizer que seus filhos e filhas também sejam sábios, que geração após geração o sábio gerará somente pessoas sábias; essa é uma idéia estúpida. Portanto a primeira divisão foi muito precisa. Ele classificou as pessoas corretamente: as pessoas conscientes no topo, depois as pessoas menos conscientes, depois as pessoas mais inconscientes, então as pessoas totalmente inconscientes.
E se manu chama os sudras de pessoas absolutamente inconscientes, intocáveis, não há nada de errado nisso; filosoficamente isso está absolutamente correto. Mas na prática ele errou porque ele não pensou que não aconteceria sempre de que as pessoas inconscientes produziriam pessoas inconscientes.
 
Aconteceu que todas as pessoas iluminadas vieram da segunda classe; da classe dos guerreiros; não dos brâmanes, que era a classe mais alta. Isso é muito estranho. Mesmo a encarnação Hindu; Rama e Krishna; todos eles pertenciam a segunda classe; eles não eram brâmanes. Buda e Mahavira; eles não eram brâmanes. Portanto a classe Brâmane não produziu um único iluminado, porque eles se tornaram muito auto-realizados. Eles estavam no topo; que mais você precisa? Todos iriam tocar os pés deles; até o rei tinha que tocar os pés deles. Eles eram as pessoas mais puras, portanto não havia anseio de encontrar mais; isso era suficiente. Isso era muito agradável e gratificante para seus egos.
 
Porque isso aconteceu aos chhatriyas, a Segunda classe? Meu entendimento é porque eles eram a segunda classe, havia um grande anseio para eles superarem os Brâmanes, e a única maneira que eles encontraram para superar os brâmanes foi de se tornar iluminados. Somente assim eles podiam superar os brâmanes; não havia outra maneira.
Os brâmanes eram os estudantes mais cultos. Os chhatriyas tinham que alcançar algo mais alto que estudar e aprender.Eles tinham que alcançar algo que não fosse um direito nato, assim os Brâmanes não podem reivindicar. Apenas pelo nascimento ninguém pode reivindicar a iluminação.
E aconteceu somente na Segunda classe porque isso faz parte da psicologia humana que quanto mais próximo você está da classe mais alta mais competitividade há dentro de você. Quanto mais distante você está há menos esperança de que você possa conseguir competir com os brâmanes. Os comerciantes não podem pensar em competir. Os sudras, é claro, não podem nem imaginar ou sonhar de que eles podem conseguir alguma coisa. A ele não é permitido nem de ler, a ele não é permitido ser educado. Ele é mantido completamente escravizado em sua inconsciência, portanto não existe a questão de um sudra se tornar iluminado.
 
O comerciante tem outra competição, que é a do dinheiro. Esta é uma competição horizontal entre comerciantes. Ele está tentando competir para ter mais dinheiro e ele sabe que ele não pode competir com os guerreiros: um comerciante não é um soldado. E ele não pode competir com o sacerdote porque um comerciante não é um estudante.
E os brâmanes se apoderaram de todas as antigas escrituras e literatura. Eles deviam dar aqueles livros somente para seus filhos, para seus descendentes. E por milhares de anos esses livros nunca foram impressos, embora a impressão tivesse começado na China três mil anos antes, e isso poderia ter vindo para a Índia sem dificuldades. As pessoas deviam estar atentas; eles estavam constantemente indo e vindo da China. Se o Budismo pode se espalhar por toda a China, é impossível que eles não pudessem trazer de volta o mecanismo e a compreensão da impressão.
Mas os brâmanes eram contra a impressão. Eles eram até mesmo contra imprimir suas escrituras quando os britânicos chegaram e tomaram a Índia dos Maometanos; trezentos anos atrás. As escrituras foram impressas contra a vontade deles, porque eles receavam que uma vez que elas fossem impressas, elas se tornariam propriedade pública. Então qualquer pessoa podia lê-las e qualquer um podia ser um estudante. Eles queriam mantê-las para eles mesmos, portanto só haveria cópias escritas a mão que eram mantidas como uma tradição familiar: assim cada família tem sua própria cópia de certa escritura escrita a mão. Os brâmanes monopolizavam isso.
 
Os chhatriyas, a Segunda classe, tentou; e isso foi um grande esforço; se tornarem iluminados para superar os brâmanes. Mas é muito importante compreender que se tornando iluminados eles se tornaram sem divisões, seu ser tornou-se um. E certamente eles ficaram mais altos do que qualquer ser humano que estava dividido. Não havia nenhuma questão sobre sua superioridade.
Dessa forma, até mesmo os brâmanes viriam para os iluminados sem se incomodar que eles vieram da segunda classe. Assim os brâmanes tocaram os pés dos não-brâmanes; o que seria impossível. Mas uma vez que os não-brâmanes se tornaram iluminados então o brâmane sabe que o que ele sabe é somente conversa fiada. O que esse homem sabe não é conversa fiada. Ele não é um estudante, ele realmente é um sábio. Portanto centenas de brânanes eram discípulos de Buda, centenas de brâmanes eram discípulos de Mahavira.
O mundo pode chegar a uma harmonia se a meditação se espalhar amplamente, e as pessoas serão trazidas para uma conscientização dentro delas. Esta será uma dimensão totalmente diferente para se trabalhar. 
 
Até agora isso era uma revolução. O ponto era a sociedade, sua estrutura. Ela falhou repetidamente de maneiras diferentes. Agora seria o indivíduo; e não uma revolução, mas meditação, transformação.
E isso não era tão difícil como as pessoas pensam. Eles podem desperdiçar seis anos para obter um grau de mestre em uma universidade; e eles não acharão que isso é desperdiçar muito tempo por apenas um diploma que não significa nada.
 
É somente uma questão de entender o valor da meditação. Então será possível para milhões de pessoas se tornarem não divididas dentro delas. E elas serão o primeiro grupo da humanidade a se tornar harmonioso, sua beleza, sua compaixão, seu amor; todas as suas qualidades; estão fadadas a ressoar pelo mundo.
Meu esforço é tornar a meditação quase uma ciência que não tem nada a ver com religião.
 
Dessa forma qualquer um pode praticá-la; se ele é um Hindu ou um Cristão ou um Judeu ou um Maometano, isso não importa. Qual é sua religião, é irrelevante; ele ainda pode meditar. Ele não precisa nem mesmo acreditar em qualquer religião, ele pode ser um ateísta; ainda assim ele pode meditar.
 
A meditação tem que se tornar quase como um fogo selvagem. Então há alguma esperança. E as pessoas estão prontas: elas estão sedentas por algo que mude todo o sabor da sociedade. Ela é feia como ela é, é repugnante. É no máximo, tolerável. De alguma maneira as pessoas têm tolerado a sociedade. Mas tolerá-la não é algo muito agradável.
 
Ela devia ser extasiante
Ela devia ser agradável
Ela devia trazer uma dança para o coração das pessoas.
 
E uma vez que estas divisões dentro da pessoa desapareçam, ele pode ver tão claramente sobre tudo. Não é uma questão dele ser culto, é uma questão de clareza. Ele pode olhar em toda dimensão, em toda direção. Com tal clareza, com tal sensibilidade, percepção, que ele pode não ser culto mas sua clareza lhe dará respostas que o conhecimento não pode dar.
Essa é uma das coisas mais importantes; a ideia de utopia; que tem perseguido o homem como uma sombra por milhares de anos. Mas de alguma maneira se confundiu com a mudança na sociedade; o indivíduo nunca recebeu atenção.
Ninguém deu muita atenção ao indivíduo; e essa é a causa raiz de todos os problemas. Mas porque o indivíduo parece ser tão pequeno e a sociedade parece ser tão grande, as pessoas pensam que podemos mudar a sociedade, e assim os indivíduos mudarão.
Isso não vai ser assim; porque sociedade é apenas uma palavra; somente os indivíduos existem, não há nenhuma sociedade. A sociedade não possui uma alma; você não pode mudar nada nela.
Você só pode mudar o indivíduo, por menor que ele pareça.
 
E uma vez que você conheça a ciência de como mudar o indivíduo, ela é aplicável a todos os indivíduos por toda parte.
E meu sentimento é que um dia iremos alcançar uma sociedade que será harmoniosa, que será muito melhor que todas as idéias que os utopistas Produziram por milhares de anos.
Extraído de Osho: Light on the Path, Chapter 30
 

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