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Osho A Única Meditação Que Existe: Observar

A Única Meditação Que Existe: Observar

 
Osho,
Não "manter a mente tranqüila", mas vazia.
Embora você não tenha plena certeza se os professores das várias localidades estão certos ou errados, se sua própria base é sólida e genuína, os venenos das doutrinas erradas não serão capaz de lhe fazer mal, "manter a mente calma" e "esquecer preocupações" incluídas. Se você sempre "esquece as preocupações" e "mantém a mente calma," sem despedaçar a mente do nascimento e morte, então as enganadoras influências de forma, sensação, percepção, volição e consciência seguirão seu próprio caminho e você estará inevitavelmente dividindo a vacuidade em duas partes.
Relaxe e torne-se vasto e expansivo. Quando velhos hábitos repentinamente surgirem não use a mente para reprimi-los. Nessa hora, é como um floco de neve sobre uma fornalha aquecida. Para aqueles dotados de visão penetrante e uma mão familiar, um salto e eles saltam livres.
Só então eles conhecem o dito de Jung: quando usando a mente, sem nenhuma atividade mental. Conversa distorcida poluída com nomes e formas, conversa franca sem complicações. Sem mente mas funcionando, sempre funcionando mas não-existente - o esvaziamento de que eu falo agora não está separado de ter mente. Estas não são palavras para enganar pessoas. 
 
Tem havido um grande mal-entendido sobre estas duas coisas: manter a mente tranqüila e esvaziamento mental. Existiram muitas pessoas que ensinaram que elas são sinônimos. Elas parecem ser sinônimos, mas na realidade estão tão separadas quanto duas coisas podem estar, e não há como interligá-las. 
 
Assim, primeiro vamos tentar encontrar o exato significado dessas duas palavras, porque o sutra Ta Hui completo desta noite diz respeito ao entendimento da diferença. 
 
A diferença é muito sutil. Um homem que está mantendo sua mente tranqüila e um homem que não tem mente irá parecer exatamente igual olhando de fora, porque o homem que está mantendo sua mente tranqüila também está silencioso. Por baixo de seu silêncio há um grande tumulto, mas ele não está permitindo isto vir à tona. Ele está no controle total. 
 
O homem com a não-mente, ou sem atividade mental, não tem nada para controlar. Ele é somente puro silêncio com nada reprimido, com nada disciplinado - apenas um puro céu vazio.
 
Superfícies podem ser muito enganadoras. A pessoa precisa estar muito alerta sobre as aparências, porque ambas parecem iguais do lado de fora - ambas são silenciosas. O problema não teria surgido se a mente tranquila não fosse fácil de alcançar. É fácil de alcançar. Esvaziamento mental não é tão fácil de alcançar; não é barato é o maior tesouro do mundo 
 
A mente pode jogar o jogo de ser silenciosa; ela pode jogar o jogo de não ter qualquer pensamento, qualquer emoção, mas estes estão apenas reprimidos, plenamente vivos, prontos para aparecer a qualquer momento. As assim chamadas religiões e seus santos caíram na falácia de tranqüilizar a mente. Se você continua sentado em silêncio, tentando controlar seus pensamentos, não permitindo suas emoções, não permitindo qualquer movimento dentro de você, lento, lentamente isso se tornará seu hábito. Essa é a maior decepção do mundo que você pode dar a si próprio, porque tudo é exatamente o mesmo, nada mudou, mas parece que você sofreu uma transformação.
 
O estado de não-mente ou de esvaziamento mental é exatamente o oposto de tranqüilizar a mente - é ir além da mente. É criar uma tal distância entre você e a mente que esta se torna a mais distante estrela, milhões de anos luz distante, e você é apenas um observador. Quando a mente é tranqüilizada você é o controlador. Quando a mente não está, você é o observador. Estas são as marcas distintas.
 
Quando você está controlando alguma coisa você fica tenso; você não pode ficar sem tensão, porque aquilo que é controlado está continuamente tentando revoltar-se contra você, aquilo que está escravizado deseja liberdade. Sua mente mais cedo ou mais tarde irá explodir em vingança.
 
Uma história que eu tenho amado. 
 
Em uma vila, havia um homem de um tipo muito agressivo e raivoso, tão violento que ele matou sua esposa, por algo trivial. Toda a vila o temia porque ele não conhecia outro argumento a não ser violência. 
 
No dia que ele matou sua mulher jogando-a num poço, um monge Jaina ia passando. Juntou uma multidão e o monge Jaina disse; esta mente cheia de raiva e violência vai lhe levar pro inferno. 
 
A situação era tal que o homem disse, eu também desejo ser tão silencioso quanto você, mas que posso fazer?
Eu nada sei. Quando a raiva me pega, fico quase inconsciente e agora matei minha própria mulher amada.
 
O monge Jaina disse: A única maneira de acalmar essa mente, repleta de raiva, rancor e violência, é renunciar ao mundo. Jainismo é uma religião de renúncia, e a renúncia final é até mesmo das roupas. O monge Jaina vive desnudo, devido a que não lhe é permitido possuir nem mesmo roupas.
 
O homem era de um tipo muito arrogante e isso tornou-se um desafio para ele. Diante da multidão, ele também jogou suas roupas no mesmo poço da mulher. A vila inteira não podia acreditar nisso; até mesmo o monge Jaina ficou um pouco amedrontado, ele é louco ou algo assim? O homem caiu aos seus pés e disse: Você deve ter levado muitas décadas para alcançar o estado de renúncia... eu renuncio ao mundo, renuncio a tudo. Sou seu discípulo - me inicie.
 
Seu nome era Shantinath e shanti significa paz. Isso sempre acontece... se você vê uma mulher feia, muito provavelmente seu nome será Sunderbhai, que significa mulher bonita. Na Índia as pessoas têm um jeito estranho... para o homem cego eles dão o nome Nayan Sukh. Nayan Sukh significa aquele a quem os olhos dão grande prazer. 
 
O monge Jaina disse: Você tem um belo nome. Não o mudarei; eu o conservarei, mas de agora em diante você deve lembrar que a paz precisa tornar-se sua própria vibração. 
 
O homem disciplinou-se, acalmou sua mente, jejuou por longo tempo, torturou a si mesmo e logo se tornou mais famoso que seu mestre. Pessoas raivosas, pessoas arrogantes, pessoas egoístas podem fazer coisas que pessoas pacíficas levarão algum tempo para fazer. Ele tornou-se muito famoso e milhares de pessoas costumavam vir apenas para tocar seus pés.
 
Após vinte anos ele estava na capital. Um homem de sua vila tinha vindo por algum propósito e ele pensou: Será bom ir e ver que transformação aconteceu a Shantinath. Tantas histórias são contadas - que ele tornou-se um homem totalmente novo, que seu velho eu se foi e um novo ser surgiu nele, que ele realmente se tornou paz, silêncio, tranqüilidade.
 
Assim o homem foi com grande respeito. Mas quando ele viu Muni Shantinath, vendo sua face, seus olhos, ele não podia achar que tinha ocorrido alguma mudança. Não havia nada da graça que necessariamente irradia de uma mente que se tornou silenciosa. Aqueles olhos ainda eram tão egoístas - de fato, eles se tornaram mais agudamente egoístas. A presença do homem era até mesmo mais feia do que costumava ser.
 
Tranquilo, o homem aproximou-se. Shantinath o reconheceu, ele havia sido seu vizinho - mas agora isso estava abaixo de sua dignidade reconhecê-lo. O homem também percebeu que Shantinath o havia reconhecido, mas estava fingindo que não. Ele pensou, isto mostra muito. Ele aproximou-se de Shantinath e perguntou: Posso lhe fazer uma pergunta? Qual é o seu nome?
Naturalmente, grande raiva surgiu em Shantinath porque ele sabia que este homem sabia perfeitamente bem qual era seu nome. Mas ele ainda manteve o controle e disse: Meu nome é Muni Shantinath.
O homem disse: É um nome bonito - mas minha memória é muito curta, você pode repeti-lo? Eu esqueci... Que nome você falou?
Isso foi demais. Muni Shantinath costumava carregar um bastão. Ele pegou o bastão em suas mãos... ele esqueceu de tudo - vinte anos de controle da mente - e ele disse: Pergunte de novo e mostrarei a você quem sou eu. Você esqueceu? - Eu matei minha mulher, sou o mesmo homem.
 
Só então ele se deu conta do que tinha acontecido.
 
Num simples momento de inconsciência, ele se deu conta de que vinte anos desceram pelo ralo; ele não havia mudado nada. Mas milhões de pessoas sentem grande silêncio nele... Sim, ele se tornou muito controlado, ele se mantém reprimido, e agora isso acabou. Tanto respeito e ele não tem nenhuma qualificação para esse respeito - tanta honra, até mesmo reis chegam para tocar seus pés.
 
Seus assim chamados santos não são nada senão animais controlados. A mente não é nada senão uma longa herança de todo seu passado animal. Você pode controlá-la, mas uma mente controlada não é uma mente desperta.
O processo de controlar, reprimir e disciplinar é ensinado por todas as religiões e devido aos esses ensinamentos falaciosos a humanidade não avançou nem uma polegada - permanece bárbara. A qualquer momento as pessoas começam a matar uns aos outros. Não leva nem um simples momento para se perderem; eles esquecem completamente que são seres humanos e algo bem maior, algo melhor é esperado deles. Existiram bem poucas pessoas que foram capazes de evitar essa decepção de controlar a mente e acreditar que alcançaram o estado de indiferença mental.
 
Para alcançar o estado de indiferença mental, um processo totalmente diferente está envolvido: Chamo isso de a suprema alquimia. Consiste apenas de um simples elemento - que é a observação.
 
Gautama Buda ia passando por uma cidade quando uma mosca chega e pousa na sua testa. Ele está conversando com seu companheiro, Ananda, e ele continua falando e move sua mão para espantar a mosca. Então subitamente ele se deu conta de que seu movimento com a mão havia sido inconsciente, mecânico. Porque ele estava falando conscientemente com Ananda, a mão espantou a mosca mecanicamente. Ele pára e, embora agora não houvesse mais nenhuma mosca, ele move sua mão novamente conscientemente.
Ananda diz: Que você está fazendo? A mosca se foi... Gautama Buda diz: A mosca se foi... mas cometi um pecado, porque fiz o movimento inconscientemente.
 
A palavra inglesa pecado é usada por Gautama Buda com seu significado correto. A palavra pecado origina-se nas raízes que significa esquecimento, desatenção, inobservância, fazendo coisas mecanicamente - e toda nossa vida é quase mecânica. Nós vamos fazendo coisas da manhã à noite, da noite a manhã, como robôs.
 
Um homem que deseja entrar no mundo da indiferença mental precisa aprender somente uma coisa - um simples passo e a jornada está concluída. Este passo simples é fazer tudo atentamente. Você move sua mão atentamente; você abre seus olhos atentamente; você caminha, você dá seus passos alerta, cônscio; você come, você bebe, mas nunca permite a mecanicidade se apossar de você. Esta é a única alquimia secreta da transformação.
Um homem que pode fazer tudo plenamente consciente torna-se um fenômeno luminoso. Ele é todo luz e toda sua vida é cheia de fragrância e de flores. O homem mecânico vive em buracos negros, buracos sujos. Ele não conhece o mundo da luz; ele é como o cego. O homem de vigilância é realmente o homem que tem olhos.
 
Ta Hui bem lentamente está penetrando nos mais profundos segredos da transformação interior. Ele diz: Embora você não saiba plenamente se os professores das várias localidades estão certos ou errados, se sua própria base é sólida e genuína, os venenos das doutrinas erradas não serão capazes de prejudicar você... 
 
Ele diz que é inutil pensar quem está certo ou quem está errado. Existem milhares de doutrinas, centenas de filosofias e se você continuar buscando a verdade nestas palavras, você ficará perdido numa selva onde você não pode encontrar o caminho. Tudo que você sabe é alcançar uma base sólida dentro de você.
 
Manter a mente calma, e também esquecer as preocupações. Se você sempre esquece as preocupações e mantém a mente calma, sem despedaçar a mente do nascimento e morte, então as enganadoras influências de forma, sensação, percepção, volição, e consciência acharão seu caminho e você estará inevitavelmente dividindo o vazio em dois. Relaxe e torne-se vasto e expansivo... 
 
Não é uma questão de autocontrole separado da existência; é uma questão de relaxar e tornar-se vasto - tão vasto quanto a própria existência. E na observação você se torna infinito: esta é a única coisa dentro de você que não tem limites.
Apenas dê uma olhada em sua atenção, testemunhando. É ilimitada. Nenhum começo, nenhum fim... é sem forma.
Esta calma absoluta da mente é exatamente não-mente ou indiferença mental. Não é um controle, não é uma disciplina; não é que você esteja colocando toda sua pressão sobre sua mente e mantendo-a silenciosa. Não, ela simplesmente não está aí. A casa está vazia. Não há ninguém para controlar e não há ninguém para ser controlado. Todas as preocupações para controlar desapareceram em uma simples observação. Esta observação é expansiva. Uma vez que você provou um pouco dela, ela continua se expandindo até os limites do universo.
 
Quando velhos hábitos subitamente surgirem, não use sua mente para reprimi-los. Nessa hora, é como um floco de neve sobre uma fornalha aquecida.
 
Ele está lhe lembrando que até mesmo quando você está se movendo no caminho da vigilância, às vezes, velhos hábitos podem ressurgir. Mas não se preocupe; eles são como um floco de neve sobre uma fornalha aquecida, eles irão desaparecer à sua própria maneira. Você simplesmente observa. Não se deixe envolver, não se perturbe, não fique preocupado.
Ás vezes surgirá raiva, às vezes surgirá um desejo, às vezes haverá ambição, mas eles não podem perturbar sua vigilância. Eles virão e passarão sem deixar rastros em seu espelho puro. Mas você tem apenas que lembrar uma coisa: não comece a lutar com eles, despedaçando-os, destruindo-os, lançando-os fora. Isso acontece muito naturalmente com a mente que; se alguma coisa errada está acontecendo, pule sobre isso e destrua-o. Essa é a única coisa que você deve ficar atento, porque isso é o que não permite ao homem ir além da mente. Velhos hábitos virão - e velhos hábitos são muito antigos, muitas e muitas vidas antigos. Sua vigilância é muito fresca e muito recente; sua mecanicidade é antiga, assim é muito natural que isso reapareça.
 
Alguém lhe insulta - você não tem que ficar zangado, mas subitamente você percebe a raiva surgindo. Isso não é um esforço, é apenas um velho hábito, uma velha reação. Não lute com isso, não tente sorrir e escondê-la. Apenas observe-a, e isso virá e passará... 
 
Como um floco de neve sobre uma fornalha aquecida. Para aqueles com uma visão penetrante e uma mão familiar, um salto e eles saltam livres. Somente então eles compreendem o dito preguiçoso de Jung: quando usar a mente, sem nenhuma atividade mental. 
 
Se um homem aprendeu a arte da observação, ele também pode usar sua mente e ainda não ter nenhuma atividade mental.
 
Eu estou falando para vocês e estou usando minha mente porque não há outra maneira.
 
A mente é o único meio de comunicar qualquer mensagem em palavras; esse é o único mecanismo disponível. Mas minha mente está absolutamente silenciosa, não há nenhuma atividade mental: Eu não estou pensando no que vou dizer e não estou pensando no que disse. Estou simplesmente respondendo ao Ta Hui espontaneamente sem me envolver nisso.
É como quando você vai para as montanhas e você grita e as montanhas ecoam: as montanhas não estão realizando alguma atividade mental, elas estão simplesmente ecoando. Quando falo sobre o Ta Hui, sou apenas uma montanha ecoando.
 
Quando usando a mente, sem nenhuma atividade mental. Conversas distorcidas por nomes e formas, fale direto sem complicações. Sem mente mas funcionando... 
 
Esta é uma experiência estranha, quando você puder usar a mente sem nenhuma atividade mental... 
 
Sem mente mas funcionando, sempre funcionando, mas não-existente.
 
Eu estive, desde minha infância, apaixonado pelo silêncio.
 
Tão logo me foi possível, apenas sentava em silêncio. Naturalmente, minha família costumava pensar que eu não iria servir para nada - e eles estavam certos. Eu certamente provei não servir para nada, mas não me arrependo disso.
Isso chegou a tal ponto que às vezes, eu estava sentado e minha mãe vinha até mim e dizia algo assim: Parece não haver ninguém em casa. Preciso de alguém para ir ao mercado comprar alguns vegetais. Eu estava sentado na frente dela e eu disse; Se eu achar alguém lhe direi...
 
Era aceito que minha presença não significava nada; se eu estava lá ou não, não fazia diferença. Uma ou duas vezes eles tentaram e então acharam que seria melhor deixar-me de fora e não me dar importância - porque pela manhã eles me mandariam para comprar vegetais e à noite eu perguntaria; esqueci o que vocês me mandaram fazer e agora o mercado está fechado... Nas vilas os mercados de vegetais fecham ao anoitecer, e os moradores voltam para suas casas.
Minha mãe disse. Não é culpa sua, é nossa culpa. Esperamos por todo o dia, mas em primeiro lugar não deveríamos ter pedido a você. Onde você esteve?
Eu disse; Quando saí de casa, bem aqui perto havia uma bela árvore bodhi - o tipo de árvore sob a qual Gautama Buda tornou-se iluminado. A árvore ganhou o nome de árvore bodhi - ou em inglês, árvore bo - por causa de Gautama Buda. A gente não sabe como ela era chamada antes de Gautama Buda; ela tinha que ter algum nome, mas depois de Buda, ela ficou associada a seu nome.
 
Havia uma linda árvore bodhi e ela era uma tal tentação para mim.
 
Costumava haver lá sempre um tal silêncio, tal tranqüilidade debaixo dela, ninguém para me perturbar, que não pude passar por ela sem me sentar debaixo dela por algum tempo. E aqueles momentos de paz, acho que às vezes devo ter ficado por todo o dia.
Após alguns poucos desapontamentos eles pensaram, É melhor não importuná-lo. E eu fiquei imensamente feliz por eles terem aceito o fato de que eu sou um quase não-existente. Isso me deu uma tremenda liberdade. Ninguém esperava nada de mim. Quando ninguém espera nada de você, você fica em um silêncio... O mundo lhe aceitou; agora não há nenhuma expectativa de você.
 
Quando, às vezes, eu chegava tarde em casa, eles costumavam me procurar em dois lugares. Um era na árvore bodhi - e devido a que eles começaram a me procurar sob a árvore bodhi , eu comecei a subir na árvore e sentava no topo dela. Eles vinham e olhavam ao redor e diziam: Parece que ele não está aqui. E eu dizia pra mim mesmo; sim, isto é verdade. Eu não estou aqui.
Mas logo me encontraram, porque alguém me viu subindo e contou pra eles; Ele tem enganado vocês. Ele sempre esteve aqui, a maior parte do tempo sentado na árvore - assim eu tinha que ir um pouco mais longe.
 
Havia um cemitério Maometano...
 
Aqui as pessoas normalmente não vão aos cemitérios. È claro, todos terão que ir uma vez, mas exceto isso, as pessoas não gostam de ir ao cemitério. Então aquele era um lugar muito silencioso... porque os mortos não falam, eles não criam inconvenientes, eles não perguntam a você questões desnecessárias, eles nem mesmo perguntam quem é você ou por apresentações.
Eu costumava ficar sentado no cemitério Maometano. Era um lugar enorme, com muitas covas, com árvores, árvores muito frondosas. Quando meu pai veio a saber que eu estava sentado lá, ele disse: Isso é demais! Ele veio um dia ao meu encontro e disse: Você pode se sentar na árvore bodhi ou debaixo da árvore bodhi e ninguém irá lhe perturbar. Isso é demais, isso é perigoso - e de fato, quando alguém vai para o cemitério ele deveria tomar banho e trocar de roupa. Você fica sentado aqui o dia todo e às vezes à noite, e quando chega em casa nós não sabemos de onde você está vindo.
Isto é comum, que quando você chega do cemitério... Ordinariamente ninguém vai lá a menos que seja mandado, e eles têm que ir; então, relutantemente eles vão. Do cemitério, as pessoas normalmente vão direto para o rio tomar um banho, trocar de roupas, e só então, eles entram em casa. Assim meu pai falou: Eu não sei há quanto tempo você vem fazendo isso.
Eu disse: Desde de que vocês me perturbaram na árvore bodhi. Eu tive que encontrar outro lugar... E eu disse a ele: Até mesmo você pode desfrutar disso de vez em quando. Quando se sentir cansado e muito tenso, venha aqui - nenhum morto perturba ninguém. 
Ele disse: Não fale comigo sobre os mortos - e particularmente num túmulo Maometano... Maometanos são pobres; seus túmulos são túmulos de lama. Quando chove, às vezes um cadáver aparece. A lama é lavada e você pode ver o cadáver - a cabeça de alguém aparece, a perna de alguém é mostrada. Ele disse: Nunca me diga para ir aí. Somente a idéia de que um dia estarei em tal posição, com minha cabeça aparecendo fora do túmulo, me faz sentir tão amedrontado...você é um menino estranho!
Eu disse: Que há de errado nisso? O pobre companheiro está morto, ele não pode fazer nada. Está chovendo, ele não pode conseguir um guarda-chuva, o que ele pode fazer? Se uma de suas pernas aparece, o que ele pode fazer? Ele não pode puxá-la - se ele a puxar para dentro, assim também haverá problema, então ele se mantém em silêncio e deixa as coisas serem como elas são.
 
Um amor de silêncio e um amor de estar ausente me ajudou tão tremendamente que posso entender quando ele diz: Sempre funcionando mas não-existente - a indiferença mental de que falo agora não está separada de ter mente. Estas não são palavras para enganar pessoas.
 
Ta Hui está dizendo: Não estou usando estas palavras para enganar ninguém; não estou tentando mostrar meus conhecimentos; não estou tentando fingir que sou mais culto que você. Estou dizendo essas palavras apenas para compartilhar minha experiência de que a não-mente e a mente podem existir juntas. Nenhum método repressivo deveria ser usado, somente pura observação... e bem lentamente a mente perde todo o conteúdo. Ela se torna não-mente.
 
Assim, indiferença mental e mente não são separadas. Indiferença mental é mente sem qualquer conteúdo, sem qualquer pensamento. É apenas como um espelho não refletindo coisa alguma.
O silêncio de ser um espelho não refletindo coisa alguma é a maior bênção que a existência permite o homem ter. E de lá, as coisas vão se expandindo - mistérios sobre mistérios... sem questões, sem respostas, mas tremendas experiências... nutrindo, preenchendo, dando contentamento a alma faminta a qual esteve vagando por vidas e vidas.
 
É hora de parar essa peregrinação.
 
Existe um método simples para parar essa peregrinação, que é começar a observar sua mente, seu corpo, suas ações. O que quer que você esteja fazendo ou não fazendo, você tem que estar alerta de uma coisa - que você está observando. Não perca o observador - então não importa se você é um Cristão ou um Hindu ou um Jainista ou um Budista.
 
O observador não é ninguém. É somente consciência pura.
 
E somente esta consciência pura pode trazer uma nova humanidade, um novo mundo, onde as pessoas não irão discriminar uma contra a outra por razões estúpidas. Nações, raças, religiões, doutrinas, ideologias - são coisas somente para crianças brincarem com elas, não para pessoas maduras. Para pessoas amadurecidas há somente uma coisa na existência; e isso é vigilância.
 
Um monge está indo pregar a mensagem de Gautama Buda. Ele mesmo ainda não está iluminado; eis porque Gautama Buda o chama e lhe diz: Lembre-se, tenho que dizer isso porque você ainda não está iluminado... você é eloqüente, você fala bem, você pode espalhar a mensagem. Você pode não ser capaz de plantar as sementes mas você pode ser capaz de atrair algumas pessoas para vir até mim - mas use também esta oportunidade para seu próprio crescimento.
O monge perguntou: Que posso fazer, como posso usar esta oportunidade?
E Buda disse: Há somente uma coisa que pode ser feito em cada oportunidade, em cada situação, e isso é observação. Você, às vezes, irá encontrar pessoas irritadas com você, raivosas, porque você feriu suas ideologias, suas doutrinas, seus preconceitos. Permaneça silencioso e alerta. Pode haver dias que você não obterá comida porque as pessoas estão contra você, eles não vão lhe dar nem mesmo água. Observe... observe sua fome, observe sua sede... mas não fique irritado, não fique aborrecido. O que você irá ensinar as pessoas é menos importante do que sua própria observação.
Se você voltar para mim atento, ficarei imensamente alegre. Não importa quantas pessoas você abordou; não importa para quantas pessoas você falou. O que importa é se você finalmente chegou em casa, se você mesmo encontrou as bases sólidas do testemunhar. Então tudo mais é insignificante.
Esta é a única meditação que existe; todas as outras meditações são variações do mesmo fenômeno.
 
Osho, The Great Zen Master Ta Hui, Chapter 28