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Osho As Religiões - O Erro Fundamental Delas

As Religiões - O Erro Fundamental Delas

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Osho,
Você é contra todas as religiões? Qual é o principal erro delas? 
 
Sim, sou contra todas as assim chamadas religiões porque elas não são de maneira nenhuma religiões. Sou pela religião, mas não pelas religiões.
 
A religião verdadeira só pode ser uma, exatamente como a ciência. Você não tem um físico Maometano, um físico Hindu, um físico Cristão; isso seria bobagem. Mas foi isso que as religiões fizeram – elas transformaram o mundo inteiro num hospício.
 
Se a ciência é uma, então porque a ciência do interior não seria uma também?
 
A ciência explora o mundo objetivo e a religião explora o mundo subjetivo. O trabalho delas é o mesmo, só a direção e a dimensão delas são diferentes.
 
Numa era mais iluminada não haverá tal coisa como religião, haverá somente duas ciências: a ciência objetiva e a ciência subjetiva. Ciência objetiva lida com as coisas, ciência subjetiva lida com o ser.
 
É por isso que digo que sou contra as religiões, mas não contra religião. Contudo, essa religião ainda está pra nascer. Todas as antigas religiões farão tudo ao seu alcance para matá-la, para destruí-la – porque o nascimento de uma ciência de conscientização será a morte de todas essas assim chamadas religiões que têm explorado a humanidade por milhares de anos.
 
O que irá acontecer com suas igrejas, sinagogas, templos? O que irá acontecer com seus sacerdotes, seus papas, seus imãs, seus shankaracharyas, seus rabis? É um grande negócio. E essas pessoas não irão permitir facilmente o nascimento da verdadeira religião.
 
Mas chegou o momento na história humana quando as garras das antigas religiões estão afrouxando.
 
O homem está apenas formalmente dando atenção ao Cristianismo, Judaísmo, Hinduismo, Maometismo, porém basicamente qualquer um que tenha alguma inteligência não está mais interessado em todo esse lixo. Ele pode ir a sinagoga e para a igreja e para a mesquita por outras razões, mas essas razões não são religiosas; essas razões são sociais. Vale a pena ser visto na sinagoga; é respeitável, e não há nenhum dano. Isso é exatamente como se associar ao rotary clube ou ao lions clube. Essas religiões são clubes antigos que têm um jargão religioso em torno delas, mas olhe um pouco mais fundo e você descobrirá que todas elas são pura embromação sem nenhuma substância dentro.
 
Sou pela religião, mas essa religião não será uma repetição de qualquer religião que você esteja familiarizado.
 
Essa religião será uma rebelião contra todas essas religiões. Ela não irá levar o trabalho delas adiante; ela irá encerrar completamente o trabalho delas e iniciar um novo trabalho – a real transformação do homem.
 
Você me pergunta: Qual é o erro fundamental de todas essas religiões? Existem muitos erros e eles são todos importantes, mas primeiro eu gostaria de falar sobre o mais fundamental. O erro mais fundamental de todas as religiões é que nenhuma delas teve coragem suficiente para aceitar que existem coisas que não sabemos. Todas elas fingiram saber de tudo, todas elas fingiram conhecer tudo, que todas elas eram oniscientes.
 
Porque isso aconteceu? – porque se você aceitar que você é ignorante sobre alguma coisa então dúvidas surgem nas mentes de seus seguidores. Se você é ignorante a respeito de alguma coisa, quem sabe? – você pode ser ignorante também sobre outras coisas. Qual é a garantia? Para torná-la a toda prova, todos eles fingiram, sem exceção, que são oniscientes.
 
A coisa mais bonita sobre a ciência é que ela não finge ser onisciente.
 
 
A ciência não finge ser onisciente; ela aceita seus limites humanos. Ela sabe o quanto conhece, e ela sabe que há muito mais a conhecer. E os maiores cientistas sabem de algo ainda mais profundo. O conhecido, eles conhecem as fronteiras disso; o conhecível eles conhecerão mais cedo ou mais tarde – eles estão a caminho.
 
Mas somente os maiores cientistas como Albert Einstein estarão ciente da terceira categoria, o incognoscível, o que nunca se tornará conhecido. Nada pode ser feito sobre isso porque o supremo mistério não pode ser reduzido ao conhecimento.
 
Somos parte da existência – como podemos conhecer o supremo mistério da existência?
 
Chegamos muito tarde; não havia ninguém presente como testemunha ocular. E não há nenhuma maneira de nos separarmos completamente da existência e ser apenas um observador. Nós vivemos, respiramos, existimos com a existência – não podemos nos separar dela. No momento da separação, morremos. E sem estar separado, apenas um observador, sem nenhum envolvimento, sem nenhum apego, você não pode conhecer o supremo mistério; então isso é impossível. Algo permanecerá sempre incognoscível. Sim, isso pode ser sentido, mas não pode ser conhecido. Talvez possa ser experienciado de maneiras diferentes – mas não como conhecimento.
 
Você se apaixona – pode você dizer que conhece o amor? Parece ser um fenômeno totalmente diferente. Você o sente. Se você tentar conhecê-lo, talvez ele se evapore de suas mãos. Você não pode reduzi-lo ao conhecimento. Você não pode torná-lo um objeto de conhecimento porque ele não é um fenômeno mental. Tem algo a ver com seu coração. Sim, seu coração o conhece, mas isso é um tipo de conhecimento totalmente diferente: o intelecto é incapaz de abordar o ritmo do coração.
 
Todavia, existe algo mais em você do que o coração – seu ser, sua fonte da vida. Desejar como conhecer através da mente, que é a parte mais superficial da sua individualidade, você conhece algo de seu coração – o qual é mais profundo que a mente. A mente não pode penetrar nisso, é muito profundo para ela. Mas por trás do coração, ainda mais fundo, está o seu ser, sua própria fonte de vida. Essa fonte de vida também tem sua própria maneira de conhecer.
 
Quando a mente conhece, chamamos isso de conhecimento.
Quando o coração conhece, chamamos isso de amor.
E quando o ser conhece, chamamos isso de meditação.
 
 
Mas todos os três falam linguagens diferentes, as quais não são traduzíveis uma para a outra. E quanto mais fundo você for, mais difícil se torna traduzir, porque no próprio centro de seu ser não existe nada a não ser silêncio. Agora, como traduzir o silêncio para o som? Na hora que você traduzir silêncio para o som você o destrói. Nem mesmo a música pode traduzi-lo. Talvez a música chegue o mais perto possível, mas isso ainda é som.
 
Poesia não chega tão perto quanto à música, porque palavras, por mais belas que sejam, ainda são palavras. Elas não possuem vida nelas, elas estão mortas. Como é que você pode traduzir vida para algo morto? Sim, talvez entre as palavras você possa ter um vislumbre aqui e ali – mas é entre as palavras, entre as linhas, não nas palavras, não nas linhas.
 
Esse é o erro mais fundamental de todas as religiões: elas enganaram a humanidade posando acintosamente como se soubessem tudo.
 
Porém todos os dias elas foram expostas e o conhecimento delas tem sido exposto; desde então, elas têm estado combatendo qualquer avanço do conhecimento.
 
Se Galileu descobre que a terra gira em torno do sol, o papa fica com raiva. O papa é infalível; ele é o único representante de Jesus, mas ele é infalível. O que dizer de Jesus – ele é o único filho amado de Deus, e o que dizer de Deus... Mas na Bíblia – que é o livro que desceu dos céus, escrito por Deus – o sol gira em torno da terra.
 
Agora, Galileu cria um problema. Se Galileu está certo, então Deus está errado; o único filho amado de Deus está errado, os representantes do único filho amado por dois mil anos – todos os papas que são infalíveis – estão errados. Só um simples homem, Galileu, destrói toda a pretensão. Ele expõe toda a hipocrisia. Sua boca precisa ser fechada. Ele era velho, morrendo, em seu leito de morte, mas ele foi forçado, quase arrastado, até a corte do papa para pedir desculpas.
E o papa exigiu: “Você mude isso no seu livro, porque o livro sagrado não pode estar errado. Você é um mero ser humano; você pode estar errado; mas Jesus Cristo não pode estar errado. O próprio Deus não pode estar errado, centenas de papas infalíveis não podem estar errados... Você está se pondo contra Deus, o filho dele, e seus representantes. Você simplesmente mude isso!”.
 
Galileu deve ter sido um homem com um tremendo senso de humor – o que tenho como sendo uma das maiores qualidades de um homem religioso. Só os idiotas são sérios; eles estão destinados a ser sérios. Para ser capaz de rir você precisa de um pouco de inteligência.
 
Dizem que um inglês ri duas vezes quando ele escuta uma piada: a primeira vez, apenas para ser delicado para o companheiro que está contando a piada, por etiqueta, um maneirismo; e segundo, no meio da noite quando ele entende o significado da piada. O Alemão ri apenas uma vez, só para mostrar que ele entendeu a piada. O Judeu nunca ri; ele simplesmente diz, “Em primeiro lugar você está contando tudo errado....”
 
Você precisa de um pouco de inteligência, e Galileu deve ter sido inteligente. Ele era um dos maiores cientistas do mundo, mas ele também deve ser tido como uma pessoa bem religiosa. Ele disse, “É claro que Deus não pode estar errado, Jesus não pode estar errado, todos os papas infalíveis não podem estar errados, mas o pobre Galileu sempre pode estar errado. Não há nenhum problema quanto a isso – irei mudar isso em meu livro. Uma coisa, porém vocês devem lembrar: a terra continuará girando em torno do sol. Quanto a isso nada posso fazer; ela não segue minhas ordens. No que diz respeito a meu livro irei mudar isso, mas deixarei uma nota dizendo que: ‘A terra não segue minhas ordens, ela continua girando em torno do sol’.
 
A religião era contra cada avanço da ciência.
 
 
A terra é plana, de acordo com a bíblia, não redonda. Quando Colombo começou a pensar em viajar com a idéia de que a terra é redonda, a aritmética dele era simples: “Se eu continuar viajando diretamente, um dia terei que chegar ao mesmo ponto de onde parti... o círculo completo”. Mas todo mundo era contra isso.
 
O papa chamou Colombo e lhe disse, “Não seja tolo! A bíblia diz isso claramente: ela é plana. Logo você alcança a beira dessa terra plana e você irá cair de lá. E você sabe onde irá cair? O paraíso está acima, e você não pode cair para cima – ou pode? Você irá cair no inferno. Assim não faça essa viagem e não convença outras pessoas a ir nessa viagem”.
 
Colombo insistiu que iria; ele fez a viagem e abriu as portas do novo mundo. Nós devemos tanto a Colombo que não estamos cientes de que o mundo que conhecemos foi trazido à luz por Colombo. Se ele tivesse dado ouvidos ao papa, o infalível papa, que só falou bobagens – mas a bobagem dele era sagrada, religiosa...
 
Todas as religiões do mundo estão destinadas a fingir que o que quer que exista, eles conhecem. E eles conhecem tudo exatamente como é; isso não pode ser de outra maneira.
 
Os Jainistas dizem que seus tirthankaras, seus profetas, seus messias são oniscientes. Eles sabem tudo – passado, presente e futuro, assim tudo que eles dizem é a verdade absoluta. Buddha fez piada sobre Mahavira, o messias Jainista. Eles eram contemporâneos vinte e cinco séculos atrás. Mahavira estava envelhecendo, Buddha, porém, era jovem e ainda era capaz de brincar e de dar risadas. Ele ainda era jovem e vivo – ele ainda não estava estabelecido.
 
Uma vez que você se torna uma religião estabelecida, então você tem seus próprios interesses. Mahavira tinha uma religião estabelecida havia milhares de anos, talvez a religião mais antiga do mundo – porque os Hindus dizem, e dizem corretamente, que eles possuem o livro mais antigo do mundo, o Rig-Veda. Certamente, agora está cientificamente provado que o Rig-Veda é a escritura mais antiga que sobreviveu. Mas no Rig-Veda, o primeiro messias Jainista é mencionado, isso é prova suficiente de que o messias Jainista precedeu o Rig-Veda. E o nome dele é mencionado como sendo Rishabhadeva.
 
Ele é mencionado com um respeito que é impossível ter para com um contemporâneo. É apenas uma fraqueza humana, mas é muito difícil respeitar alguém que é contemporâneo e vivo, exatamente como você. É fácil ser respeitoso com alguém que já morreu há muito tempo. A maneira como o Rig-Veda relembra Rishabhadeva é tão respeitosa que parece que ele morreu há pelo menos mil anos atrás, não menos que isso, portanto, o Jainismo é uma antiga religião estabelecida.
 
Budismo estava apenas começando com Buddha. Ele podia permitir-se brincar e rir, assim ele fez piadas com Mahavira e sua onipotência, onisciência e onipresença. Ele diz, “Tenho visto Mahavira diante de uma casa mendigando” – porque mahavira vivia nu e costumava mendigar apenas com as mãos. Buddha diz, “Eu o tenho visto esperando diante de uma casa que estava vazia. Não havia ninguém na casa – e esse homem ainda, dizem os Jainistas, é um conhecedor, não somente do presente, mas do passado e do futuro”.
 
Buddha diz, “Eu vi Mahavira caminhando bem na minha frente, e ele pisou na cauda de um cachorro. Era de manhã cedo e ainda não tinha luminosidade. Só quando o cachorro saltou, latindo, Mahavira veio a saber que havia pisado na cauda dele. Este homem é onisciente e ele não sabe que um cão está dormindo justo em seu caminho, e ele pisa na cauda do cão.
 
Mas o mesmo aconteceu com Buddha quando ele se tornou estabelecido.
 
 
Após trezentos anos, quando seus ditos e declarações foram reunidos pela primeira vez, os discípulos deixaram absolutamente claro que “Tudo que está escrito aqui é absolutamente verdadeiro e irá permanecer verdadeiro para sempre”.
 
Agora, nessas declarações existem tantas coisas idiotas que podem ter tido significado vinte e cinco séculos atrás, mas hoje não possuem qualquer significado devido a que tanta coisa aconteceu em vinte e cinco séculos. Buddha não tinha idéia de Karl Marx, ele não tinha idéia de Sigmund Freud... Então o que ele escreveu ou declarou está necessariamente baseado só sobre o conhecimento disponível naquela época.
 
“Um homem é pobre, devido a que em sua vida passada ele praticou más ações”. Agora, após Marx, você não pode dizer isso. “Um homem é rico devido a que ele praticou boas ações em sua vida passada”. Agora, após Marx, você não pode dizer isso. E não acho que Buddha tivesse alguma idéia de que um Karl Marx viria a existir, embora seus discípulos digam que tudo que ele disse vai permanecer verdadeiro para sempre – outra maneira de dizer de que ele é onisciente.
 
Isso era um bom consolo para o pobre, que se eles praticassem boas ações, nas vidas futuras deles também seriam ricos. Isso foi uma alegria para os ricos também. “Somos ricos porque praticamos boas ações em nossas vidas passadas”. E eles sabem perfeitamente bem que belo trabalho estão realizando agora... E a riqueza deles aumenta a cada dia; a vida passada deles acabou há muito tempo e a riqueza deles ainda continua aumentando. Os pobres continuam ficando mais pobres e os ricos continuam ficando mais ricos.
 
Mas na Índia, nenhuma revolução jamais foi planejada; não há a questão disso acontecer – e a Índia tem vivido em tal pobreza como nenhum outro país tem vivido. A Índia viveu muito tempo sob escravidão mais do que qualquer outro país no mundo. Mas escravidão, pobreza, sofrimento – tudo precisa ser aceito porque é o seu fazer. Você não pode se revoltar contra isso. Contra quem você vai se revoltar? O único jeito é fazer alguma coisa para equilibrar suas más ações com boas ações. A própria idéia de revolução nunca ocorreu na mente Indiana. Se a escravidão chegar, você terá que aceitá-la.
 
Os Hindus sabem todas as respostas. Eles dizem, “Sem a vontade de Deus nada acontece. Então se você for um escravo... “ E por dois mil anos a Índia tem estado sob escravidão. É um milagre que uma nação tão grande tenha permanecido sob escravidão por dois mil anos. E os povos que invadiram a Índia eram pequenas tribos selvagens; eles não eram nada comparados com a Índia. Eles poderiam ter sido simplesmente esmagados pela multidão, não havia necessidade de nem mesmo segurar uma espada na mão.
 
Mas qualquer um – Hunos, Mongóis, Turcos, Maometanos, Britânicos – qualquer um que fosse ambicioso e quisesse invadir a Índia era sempre bem-vindo. Ela estava pronta – agradecida que você veio de tão longe e você teve tanto trabalho! A simples razão era que os Hindus sabiam a resposta: é a vontade de Deus; nada acontece sem a vontade de Deus, assim essa escravidão é a vontade de Deus. E um homem como Mahatma Gandhi – a gente podia achar que um homem como Gandhi mostraria um pouco mais de inteligência, mas não. Se você for um Hindu você não pode mostrar mais inteligência do que deve.
 
Em Bihar, uma das províncias da Índia – a província mais pobre – houve um grande terremoto. Ela já era pobre; todo ano sofria com inundações. E então esse terremoto... milhares de mortos. E o que Gandhi disse? Ele disse, “Bihar está sofrendo devido a suas más ações”. No século vinte? – um terremoto? – e toda a população de Bihar?
 
Era compreensível que você esteve explicando a simples indivíduos que eles estavam sofrendo devido a seus karmas ruins, Mas todo um estado sofrendo por causa de seus karmas ruins...! Como se todas essas pessoas em suas vidas passadas estivessem também nesse mesmo estado, e todos eles tiveram karmas tão ruins que um terremoto aconteceu. E todo o resto da Índia não sofreu devido ao terremoto porque eles tiveram bons karmas na vida passada deles. Estranho!
 
É ainda mais estranho porque Bihar é o lugar de nascimento de Mahavira, de Gautama Buddha, de Makhkhali, de Ajit Keskambal – grandes mestres e grandes profetas – e Bihar está sofrendo porque realizou karmas ruins! Na Índia nenhum outro estado deu nascimento a tantos profetas, filósofos, pensadores. E o que Bihar pode ter feito de errado? Mas o Hinduismo sabe de tudo.
 
Quero que vocês se lembrem que o erro básico que todas as religiões cometeram é que elas não tiveram coragem bastante para aceitar de que há limites para o conhecimento delas.
 
Eles não foram capazes de admitir sobre nenhuma questão, “Não sabemos”.
 
 
Eles foram tão arrogantes que continuam dizendo que sabem, e continuam criando novas ficções de conhecimento.
 
Eis onde a verdadeira religião será diferente, fundamentalmente diferente.
 
Sim, de vez em quando surgiam indivíduos únicos que tinham a qualidade da verdadeira religião; por exemplo, Bodhidharma. Um ser humano dos mais amorosos, ele foi para a China há quatorze séculos passados. Ele permaneceu por nove anos na China e um grupo de seguidores se juntou ao redor dele. Mas ele não era um homem que pertencesse à estupidez das assim chamadas religiões.
 
Formalmente ele era um monge Budista, e a China já havia sido convertida ao Budismo. Milhares de monges Budistas já haviam alcançado a China antes de Bodhidharma, e quando eles souberam que Bodhidharma estava chegando, eles se regozijaram, porque Bodhidharma era quase igual a Buddha. O nome dele já era conhecido entre eles há muito tempo. Até mesmo o rei da China, o grande imperador Wu, veio para recebê-lo na fronteira da China com a Índia.
 
Wu foi o meio para transformar toda a China para o Budismo, para convertê-la de Confúcio para Gautama Buddha. Ele colocou todas os seus recursos e todo seu tesouro nas mãos dos monges Budistas, e ele foi um grande imperador. Quando ele encontrou Bodhidharma ele perguntou, “Tenho esperado para vê-lo. Estou velho e sou afortunado que você tenha vindo depois de tudo; por todos esses anos estive esperando. Quero perguntar algumas questões.
 
A primeira pergunta que ele fez foi: “Tenho devotado todo meu tesouro, meus exércitos, minha burocracia – tudo que tenho – para converter esta terra imensa ao Budismo, e construí milhares de templos para Buddha”. Ele fez um templo para Buddha no qual havia dez mil estátuas de buddha; a montanha inteira foi entalhada. Para que dez mil Buddhas fossem esculpidos, a montanha inteira foi consumida – entalhada em estátuas Budistas, dessa forma, toda a montanha tornou-se um templo. Ele perguntou, “Qual será minha recompensa no outro mundo?”
 
Isso é o que os outros monges estiveram dizendo a ele, “Você já fez tanto para servir a Gautama Buddha que talvez quando você alcançar o outro mundo, ele mesmo estará esperando para lhe dar boas vindas. E você ganhou tanta virtude que uma eternidade de prazeres será sua”.
 
Bodhidharma disse, “Tudo que você fez é absolutamente sem sentido. Você nem mesmo iniciou a jornada, nem mesmo deu o primeiro passo. Você irá cair no sétimo inferno – você tem minha palavra para isso.
 
O imperador Wu não pôde acreditar nisso: “Eu fiz tanto, e esse homem diz ‘Você irá cair no sétimo inferno’!”
 
Bodhidharma riu e disse, “O que quer que você tenha feito procede da ambição, e qualquer coisa feita da ambição não pode torná-lo religioso. Você renunciou a tantas riquezas, mas você não as renunciou incondicionalmente. Você está barganhando; é um negócio. Você está comprando no outro mundo, Você está colocando seu saldo bancário desse mundo para o outro mundo, transferindo-o. Você está sendo esperto: porque esse mundo é momentâneo – amanhã você pode morrer – e esses outros monges têm estado lhe dizendo que o outro mundo é eterno... Então o que você está fazendo? Dando tesouros momentâneos para ganhar os tesouros eternos? Realmente um bom negócio! A quem você está tentando enganar?”
 
Quando Bodhidharma falou para Wu dessa maneira, diante de todos os monges e os generais e os vice-reis que vieram com Wu e toda sua corte, Wu ficou zangado. Ninguém nunca tinha falado com ele desse jeito. Ele disse a Bodhidharma, “Isso é maneira de uma pessoa religiosa falar?”
 
Bodhidharma disse, “Sim, essa é a única maneira para uma pessoa religiosa falar; todas os outros modos são de pessoas que querem lhe enganar. Esses monges aqui têm estado lhe enganando; eles fizeram promessas a você. Você não sabe coisa alguma sobre o que acontece após a morte; nem eles sabem, mas eles fingem que sabem.
 
Wu perguntou, “Quem você é para falar com tal autoridade?”
 
E vocês sabem o que Bodhidharma disse? Ele disse, “Eu não sei. Esse é o único ponto que não sei. Eu fui para mim mesmo, fui para o próprio centro de meu ser e sai tão ignorante como antes. Eu não sei“. Agora eu chamo isso de coragem.
 
Nenhuma religião teve coragem suficiente para dizer, “Sabemos esse tanto, e aquele tanto nós não sabemos; talvez no futuro possamos saber. E além disso, há um espaço o qual irá permanecer incognoscível para sempre”.
 
Se essas religiões fossem mais humildes, o mundo seria totalmente diferente. A humanidade não estaria nessa confusão; não teria tanta angústia. Por todo o mundo todos estão cheios de angústia. O que dizer a cerca do inferno – nós já estamos vivendo no inferno aqui.
 
Que maior sofrimento pode haver no inferno?
 
 
E as pessoas responsáveis por isso são as assim chamadas pessoas religiosas. Elas ainda continuam fingindo, brincando o mesmo jogo. Após trezentos anos com a ciência continuamente demolindo o território delas, continuamente destruindo o assim chamado conhecimento delas, trazendo a tona novos fatos, novas realidades, o papa ainda é infalível, o shankaracharya ainda é infalível!
 
Em Jaipur houve uma conferência Hindu e um dos shankaracharyas... Existem quatro shankaracharyas na Índia e eles são equivalentes ao papa; cada um liderando uma direção – para as quatro direções, quatro shankaracharyas. Um deles pertencia a jaipur, ele nasceu em Jaipur. Ele era basicamente um astrólogo, um grande erudito, assim quando um shankaracharya morreu, ele foi escolhido para ser shankaracharya de Jaganath Puri.
 
Eu o tinha conhecido antes dele ser um shankaracharya e nessa conferência foi a primeira vez que encontrei com ele desde de que ele se tornou um shankaracharya. Perguntei a ele, “Agora você tem que se tornar infalível. Agora eu lhe conheço perfeitamente bem – antes de você ser um. Você pode me dizer a data, em qual hora você se tornou infalível?”
 
Ele disse, “Não pergunte questões inconvenientes na frente dos outros. Agora sou um shankaracharya e sou tido como infalível”.
 
Eu disse, “Tido como sendo?”
 
Ele disse, “Isso é para sua informação. Se você me perguntar em público, sou infalível”.
 
Agora um polonês tornou-se papa. Você já ouviu falar de algum polonês tornar-se infalível? Mas um papa, um polonês, tornou-se infalível. Até onde esse mundo pode cair? Agora não há mais lugar para cair. Quando o polonês morrer – porque papas morrem muito depressa, pela simples razão de que na hora que se tornam papas eles já estão quase mortos. Leva tanto tempo para chegar até o Vaticano, que se ele sobreviver alguns anos é o bastante. Agora após esse papa, a quem vocês irão escolher? Você pode encontrar alguém mais? Eu acho que Oregon ficará bem. Após a Polônia, Oregon será o lugar certo. Você pode encontrar idiotas superiores aqui, mas eles também serão infalíveis quando se tornarem papas.
 
Uma religião verdadeira terá essa humildade de aceitar que somente algumas poucas coisas são conhecidas, muito mais é desconhecido, e algo irá sempre permanecer incognoscível.
 
Esse algo é o alvo de toda a busca religiosa.
 
Você não pode torná-lo um objeto de conhecimento, contudo você pode experienciá-lo, você pode beber dele, você pode ter o sabor dele – ele é existencial.
 
O cientista permanece separado do objeto que ele está estudando. Ele está sempre separado do objeto; desse modo o conhecimento é possível, porque o conhecedor é diferente do conhecido. Porém a pessoa religiosa esta se movendo na subjetividade dela, onde o conhecedor e o conhecido são um.
 
Quando o conhecedor e o conhecido são um não há nenhuma possibilidade de conhecimento. Sim, você pode dançar isso, mas você não pode dizê-lo.
Isso pode estar no caminhar, o jeito que você caminha; isso pode estar em seus olhos, a maneira que você olha; isso pode estar em seu toque, a maneira que você toca – mas isso não pode ser expresso em palavras.
Palavras são absolutamente impotentes no que se refere a religião. E todas essas assim chamadas religiões estão cheias de palavras. Chamo tudo isso de merda!
 
Esse é o erro fundamental. Mas existem outros enganos também, que vale a pena relembrar. Por exemplo: toda religião é egoísta. Embora toda religião ensine os seguidores a abandonar o ego, a ser sem ego, ser humilde, a própria religião não é humilde, ela é muito arrogante.
 
Jesus diz, “Sejam humildes, sejam mansos”, mas você já pensou – o próprio Jesus não é humilde, nem manso, coisa nenhuma. Que maior arrogância e que maior egoísmo do que esse? – ele se declara o único filho amado de Deus! Você não pode se declarar como sendo outro filho de Deus – nem mesmo um primo, porque Deus não possui irmãos. Você não pode ter qualquer relacionamento com Deus: Esse relacionamento único está encerrado, Jesus fechou as portas.
 
Ele é o messias e ele veio para redimir o mundo. Ninguém parece estar redimido, e dois mil anos já se passaram. Ele mesmo morreu sofrendo numa cruz – a quem ele vai redimir? Mas a idéia de que “Eu vou redimir vocês, sigam-me”... Isso tem sido um dos mais importantes fatores para destruir a humanidade – devido a que todas as religiões declaram que são a única religião certa, e todas as outras estão erradas. Elas têm estado lutando continuamente, matando uma a outra, destruindo uma a outra.
 
Outro dia vi um programa na TV. Um rabi, um pastor protestante e um monge católico estavam discutindo sobre mim. E eles chegaram a uma conclusão... o rabi sugeriu, “Agora chegou a hora – devemos fazer um esforço para ter um diálogo com esse homem”. Não pude acreditar nisso – um rabi falando para um padre Católico, sugerindo que um diálogo é necessário. Porque? Havia tantos rabis no tempo de Jesus, porque o diálogo não foi necessário com Jesus? Ou a crucificação foi o diálogo?
 
E esse idiota Católico concordou. Ele nem mesmo diz, “Você, sendo um rabi, você acredita no diálogo? Então o que aconteceu com Jesus? A crucificação foi um diálogo?” Não, ele não pergunta isso. Nem o rabi se dá conta do que ele mesmo está dizendo. Jesus era um Judeu. Se ele se desviou, traga o Judeu de volta para o caminho certo; ou talvez ele esteja certo, então você vai para o caminho dele. Mas a crucificação foi o diálogo? Não foi nem mesmo um monólogo!
 
Mas agora todos eles estão estabelecidos. O Católico, o protestante e o rabi não têm nenhum problema porque agora eles são parte do negócio privilegiado. E todos eles sabem que estão fazendo as mesmas coisas, eles estão no mesmo negócio. Jesus era um problema; talvez um diálogo não fosse possível. Nem é possível comigo também, mas as razões são diferentes.
 
Com Jesus o diálogo não foi possível porque ele era o messias, mas onde vocês estavam? Um diálogo só é possível entre iguais. Ele é o filho de Deus. Quem é você? – enteado? Você tem que ser um alguém, do contrário que diálogo? Não, isso não era possível porque Jesus era tão egoísta que os rabis sabiam perfeitamente bem que um diálogo não era possível. Uma ou duas vezes eles o abordaram.
 
Uma vez um rabi perguntou a Jesus, “Com que autoridade você está falando?”
 
Ele disse, “Com minha própria autoridade – e lembre-se, antes que Abraão fosse, eu sou”. Abraão era o antepassado, o mais antigo; e Jesus diz, “Antes que Abraão fosse, eu sou. Que maior autoridade você precisa?” Agora esse homem está dizendo, “Bem aventurados os mansos”, mas ele mesmo não é manso; “Bem aventurados os pobres, bem aventurados os humildes... Mas qual é a razão? Porque eles são bem aventurados?”... Porque eles herdarão o paraíso”.
 
Um estranho argumento! Aqui você perde; lá você ganha mil vezes mais. Mas o que você ganha? – as mesmas coisas. Aqui você é pobre, lá você será rico. Aqui você é um mendigo, lá você será um rei. Mas qual é a diferença qualitativa? – apenas aqui, e lá – dois espaços diferentes. E essas pessoas estão tentando ser mansas, humildes e pobres por uma simples razão: Herdar o reino de Deus. Agora este homem está provocando e explorando sua ambição. Todas as religiões estão fazendo isso.
 
Um diálogo comigo também é impossível, mas por razões diferentes.
 
Primeiro: Não conheço a mim mesmo – sobre isso nenhuma discussão é possível – e essa é a coisa mais fundamental a ser discutida. Que diálogo é possível? Ou você esteve dentro ou não.
 
Se você tem estado dentro, então apenas olhar nos seus olhos é suficiente – esse é o dialogo. Se você não tem estado dentro, então só olhar nos seus olhos é suficiente. O dialogo está acabado antes de começar.
 
Comigo um dialogo é impossível porque não sou um erudito. Não posso citar escrituras. Eu sempre as deformo. Mas quem se importa? – porque não dou nenhuma atenção a essas escrituras. Não creio que elas sejam sagradas. Elas são somente ficções religiosas, então deformar ficções religiosas não é problema de jeito nenhum. De fato, nunca as li cuidadosamente. Eu dei uma passada nelas, aqui e ali apenas olhando – e mesmo assim encontrei tanto lixo.
 
Assim, que dialogo é possível comigo, sobre que pontos? É preciso haver um certo acordo e não há nenhum acordo possível porque eu digo que não há nenhum Deus. Agora que dialogo é possível? Você terá que provar Deus; então o dialogo pode ter início. Ou tragam Deus para servir de testemunha; então podemos discutir se Ele é verdadeiro ou apenas um Americano falso.
 
Não acredito que exista algum paraíso ou inferno. Que dialogo é possível? Sim, em outras religiões você pode ter diálogos porque esses são pontos de concordância. Um Maometano, um Cristão, um Hindu, um Judeu – Eles podem discutir Deus. Um ponto é certo, que Deus é. Agora, a questão é somente sobre a forma, os atributos, as qualidades dele – mas a coisa básica está acordada. Todos eles concordam sobre o paraíso e inferno. Agora, pode ser que alguém acredite nos sete infernos, alguém acredite em cinco, alguém acredite em três. É só uma questão de números, não tão importante. Que tipo de dialogo é possível comigo?
 
Quando ouvi o programa, comecei a imaginar que se um diálogo fosse acontecer, como iria começar? De onde? Não existe um simples ponto de acordo, porque todas essas religiões são falsas, elas não são religiões verdadeiras; do contrário haveria alguma possibilidade.
 
Com Bodhidharma posso ter um diálogo. Ele diz, “Eu não sei quem sou”. Isso é acordo suficiente. Agora podemos segurar as mãos um do outro e dar um passeio matutino. Agora não há mais necessidade de dizer mais nada: tudo foi dito.
 
Após nove anos, quando Bodhidharma estava retornando para a Índia, ele reuniu quatro de seus principais discípulos e pediu a eles, “Resumam a religião numa simples declaração para que eu possa saber se vocês me entenderam ou não”.
 
O primeiro disse, “Compaixão é religião. Essa é a mensagem básica de Buddha: compaixão”.
 
Bodhidharma disse, “Você tem meus ossos, nada mais”.
 
O segundo discípulo disse, “Meditação. Ser silencioso, ser tão silencioso que nem um único pensamento se mova dentro de você: essa é a essência da religião”.
 
Bodhidharma disse, “Você tem minha carne, nada mais; porque no que você está dizendo, você está só repetindo minhas palavras. Nos seus olhos não vejo o silêncio; na sua face não vejo a profundeza que o silêncio traz”.
 
O terceiro disse, “Isso não pode ser dito, É inexprimível”.
 
Bodhidharma disse, “Você tem minha medula. Mas se isso não pode ser dito, porque você mesmo usou essas palavras? Você já o disse. Até em dizer ‘Isso não pode ser dito, não pode ser expresso’. Você está dizendo algo sobre isso; daí eu dizer que você só tem a medula”.
 
Ele virou-se para o quarto. Havia lágrimas nos olhos do discípulo e ele caiu aos pés de Bodhidharma. Bodhidharma o sacudiu e perguntou a ele repetidamente, ”O que é religião?” Mas somente lágrimas de alegria... as mãos dele segurando seus pés em gratidão. O discípulo nunca falou uma única palavra, nem mesmo isso pode ser dito, é inexprimível.
 
Bodhidharma o abraçou e disse, “Você me tem. Agora posso ir em paz porque estou deixando algo de mim atrás”.
 
Agora com esses rabis, padres católicos, pastores protestantes, que diálogo é possível? Dois mil anos se passaram e os rabis ainda não se desculparam por terem crucificado Jesus. Ele pode ter sido um egoísta, ele pode ter errado, ele pode ter ensinado algo imperfeito, mas ninguém tem o direito de crucificar o homem – ele não fez mal a ninguém. Tudo que era necessário era um argumento cavalheiresco, entretanto eles não eram bastante competentes para argüir com ele.
 
Crucificação não é um argumento. Você pode cortar minha cabeça – isso não é um argumento. Isso não quer dizer que estou errado e você está certo. De fato, cortar minha cabeça simplesmente prova que você foi incapaz de argüir seu ponto. É sempre o fraco que fica zangado. É sempre o fraco que deseja lhe converter na ponta de uma espada. Após dois mil anos e ainda... Imagino que nem um único rabi tenha se desculpado. Porque deveriam? Eles acham que estavam certos e ainda acham que estão certos agora.
 
Imagino que tipo de Católico esse monge é e que tipo de protestante esse pastor é que está sentado com o rabi e discutindo sobre mim. Eles deviam discutir primeiro sobre eles mesmos, sobre porque eles estão sentados juntos.
 
Todas essas pessoas têm sido egoístas. Agora, os rabis continuam ensinando para as pessoas serem humildes eles, porém, não podem pedir desculpas. Isso é impossível. Eles sequer mencionaram o nome de Jesus em suas escrituras, em seus livros. Você não irá encontrar qualquer menção de Jesus, sua crucificação ou o nascimento do Cristianismo nas fontes Judaicas, não: “Não vale a pena nem mencionar”. Mas é a mesma situação com as outras religiões. Os Maometanos dizem, “Sou o único mensageiro de Deus. Um Deus, um mensageiro e um livro sagrado, o Koran – se você acreditar nessas três coisas, é suficiente, você está salvo”.
 
Isso me traz para o segundo ponto, que todas essas religiões têm estado contra a dúvida. Eles realmente temem a dúvida.
Só um intelecto impotente pode ter medo da dúvida; do contrário a dúvida é um desafio, uma oportunidade para inquirir.
 
Todos eles mataram a dúvida e todos eles forçaram sobre a mente de todos a idéia de que se você duvidar você irá cair no inferno e irá sofrer eternamente. Nunca duvide. A crença é a coisa interior; fé, fé total – nem mesmo a fé parcial servirá, só a fé total. O que você está pedindo aos seres humanos? Algo absolutamente desumano. Um homem – como é que ele pode acreditar totalmente? E mesmo que ele tente acreditar totalmente, isso quer dizer que a duvida está lá; senão contra o que ele está lutando? Contra o que ele está tentando crer totalmente?
 
Existe a dúvida e ela não é destruída por acreditar.
A dúvida é destruída pela experiência.
Eles dizem, acredite!
Eu digo, explore.
Eles dizem, não duvidem!
Eu digo, duvide até o fim, até você chegar, e saber e sentir e experienciar.
 
Então não há nenhuma necessidade de reprimir a dúvida, ela evapora por si mesma. Assim não há necessidade de você acreditar. Você não acredita no sol, você não acredita na lua – porque você acredita em Deus? Você não precisa acreditar nos fatos comuns porque eles estão aí. Mas eles não são a verdade suprema.
 
Uma rosa está presente pela manhã; ao anoitecer ela se foi. Você ainda “acredita” nela, mas isso não é necessário; você a conhece, não existe a questão da dúvida. Essa “crença” numa flor é uma simples crença, não contra a dúvida. Só assim você não fica confuso entre uma simples crença e uma crença complicada, tenho uma palavra diferente para isso: é confiança.
 
Você confia numa rosa. Ela floresce, ela libera sua fragrância, e depois se vai. Ao anoitecer você não irá mais encontrá-la; suas pétalas caíram e o vento as levou embora. Porém, isso não era uma verdade eterna; você a conhece como um fato. E você sabe novamente que haverá rosas, haverá novamente fragrância. Você não precisa acreditar; você simplesmente conhece a experiência, porque ontem também havia rosas e elas desapareceram. Hoje elas apareceram de novo – e amanhã a natureza irá seguir seu curso.
 
Porque acreditar em Deus? Você não teve qualquer experiência com Deus nem ontem, nem hoje – e que certeza você tem sobre amanhã? De onde você pode obter certeza para amanhã? – porque ontem foi vazio, hoje está vazio e amanhã é apenas uma esperança vazia, esperar contra a esperança. Mas isso é o que todas essas religiões têm ensinado: destrua a dúvida.
 
Na hora que você destrói a dúvida você destruiu algo de imenso valor no homem, porque é a dúvida que irá ajudar o homem a averiguar e encontrar. Você cortou a própria raiz da investigação; agora não haverá mais nenhuma investigação.
 
É por isso que, em todo o mundo, raramente existe, de vez em quando, uma pessoa que tenha a experiência do eterno, que já respirou o eterno, que encontrou a pulsação do eterno – mas muito raramente. E quem é responsável? Todos os seus rabis e todos os seus papas e todos os seus shankaracharyas e todos os seus imãs – eles são os responsáveis porque eles cortaram a própria raiz da investigação.
 
No Japão eles cultivam uma estranha árvore. Há, na existência, árvores de trezentos ou quatrocentos anos de idade, de cinco polegadas de altura. Quatrocentos anos de idade! Se você olhar para a árvore, ela é tão antiga e uma árvore tão pequena – cinco polegadas de altura. E eles acham que isso é uma arte! O que eles estiveram fazendo é continuar cortando as raízes. O vaso de terra no qual a árvore está enterrada não tem fundo, assim, de vez em quando, eles pegam o vaso e cortam as raízes. Quando você corta as raízes a árvore não pode crescer. Ela envelhece, mas nunca cresce. Ela vai envelhecendo, mas você a destruiu. Ela teria ficado uma árvore enorme, porque a maioria delas são árvores bo.
 
O Japão é uma nação Budista, e Gautama Buddha se tornou iluminado debaixo de uma árvore bo. A árvore bo é chamada de bo em inglês também, porque debaixo dela Gautama Sidarta tornou-se um Buddha, alcançando bodhi, a iluminação. O nome completo é árvore bodhi, mas no uso ordinário é suficiente chamá-la de árvore bo. Portanto, todas essas árvores são árvores bo. Agora nenhum Buddha pode sentar debaixo dessas árvores bo. Vocês têm impedido quem sabe quantos Buddhas de se tornarem Buddhas cortando essas árvores bo.
 
A árvore sob a qual Buddha tornou-se iluminado era tão grande que mil carros de boi podiam descansar debaixo dela. Ela era tão imensa. Ela ainda vive – não a mesma árvore, é claro, mas uma ramificação da mesma árvore. Os maometanos destruíram a árvore. Eles não puderam tolerar que uma árvore existisse sob a qual alguém alcançou tais alturas. Eles queimaram a árvore, destruíram-na completamente.
 
Mas um dos imperadores da Índia, Ashoka, tinha enviado um galho da árvore como um presente para o Ceilão com sua própria filha, Sanghamitra, que havia se tornado uma Sannyasin. 
Sanghamitra levou uma ramificação da árvore bo para o Ceilão e dessa árvore bo uma ramificação foi trazido de volta novamente e colocada no lugar onde Buddha tornou-se iluminado. Ela é parte da mesma árvore, porém da terceira geração.
 
Mas o que essas pessoas no Japão estão fazendo mostra algo significante: é o que as religiões fizeram com o homem. Eles têm estado cortando suas raízes para que você não cresça – você apenas envelhece.
 
E a primeira raiz que eles cortam é a da dúvida; desse modo a investigação cessa.
 
A segunda raiz que eles cortam lhe coloca contra sua própria natureza, condena sua natureza. Obviamente quando sua natureza é condenada, como você pode ajudar sua natureza a fluir, crescer e tomar seu próprio curso como um rio? Não, eles não lhe permitem ser como um rio, movendo-se em zigue-zague.
 
Todas as religiões tornaram vocês trens ferroviários, correndo nos trilhos, correndo de uma estação para outra – apenas passando de uma linha para a outra, nunca indo a lugar nenhum, mas sempre nos trilhos. Esses trilhos eles chamam de disciplina, controle, autocontrole.
 
As religiões causaram tanto dano que quase não se pode calcular – o vaso de pecados delas está cheio, transbordando. Só precisa ser jogado no pacífico, a cinco milhas de profundidade, tão fundo que ninguém possa encontrá-lo novamente e começar todo o processo idiota de novo.
 
O reduzido número de pessoas inteligentes no mundo devem livrar-se do que as religiões fizeram com eles sem o conhecimento destas. Eles devem ficar completamente livres do Judaísmo, do Hinduismo, do Cristianismo, do Jainismo, do budismo. Eles devem ficar completamente limpos – apenas ser humano é bastante.
 
Aceite a si mesmo.
Respeite a si mesmo. Deixe que sua natureza siga seu próprio curso. Não force, não reprima.
Duvide – porque a dúvida não é um pecado, ela é um sinal de sua inteligência. Duvide e prossiga indagando até você encontrar.
Uma coisa posso dizer: aquele que investiga, encontra. Isso é absolutamente certo; nunca foi de outra maneira.
Ninguém nunca chegou de mãos vazias de uma investigação autêntica.

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